Bateria térmica feita de biochar de nim armazena calor com alta eficiência

Pesquisadores da Escola de Agricultura de Shenyang, na China, demonstraram que resíduos das sementes de nim (Azadirachta indica) podem ser convertidos em um material de armazenamento de calor estável e de baixo custo. O estudo, liderado por Soumen Mandal, descreve a produção de um biocarvão poroso capaz de capturar, guardar e liberar energia térmica, além de contribuir para o sequestro de carbono.

O novo compósito reúne o biochar obtido das sementes da árvore — popularmente conhecida no Brasil como amargosa — com ácido láurico, um ácido graxo já utilizado em soluções de mudança de fase. Testes de laboratório indicam que o material consegue armazenar quase 95 joules de calor por grama e manter essa capacidade ao longo de centenas de ciclos de aquecimento e resfriamento.

Produção controlada eleva capacidade de armazenamento

Para fabricar o biochar, a equipa aqueceu os resíduos das sementes sob condições de baixo oxigênio em duas temperaturas distintas: 300 °C e 500 °C. O objetivo foi avaliar como a variação térmica durante a pirólise influi na estrutura interna do carbono resultante. A análise mostrou que o processo a 500 °C gera um biocarvão com área de superfície superior a 600 m² por grama, quase o dobro do produzido a 300 °C.

Essa estrutura mais esponjosa permite que o ácido láurico se infiltre profundamente nos poros, aumentando a quantidade de agente de mudança de fase retida pelo compósito. Como resultado, o material fabricado na temperatura mais alta armazenou praticamente o dobro de calor latente em comparação com a versão de menor temperatura.

Mandal destaca que o ajuste preciso da temperatura de pirólise foi determinante para otimizar a capacidade térmica. “Nosso objetivo era transformar um resíduo subutilizado em um recurso que apoie diretamente sistemas de energia limpa”, afirmou. A abordagem também reforça o potencial do biochar como tecnologia de emissão negativa, uma vez que fixa carbono que estaria disponível para reentrada na atmosfera.

Estabilidade e aplicações em energias renováveis

Além da alta densidade energética, o compósito demonstrou comportamento estável de fusão e solidificação ao longo de ciclos repetidos. Os testes revelaram que não houve vazamentos de ácido láurico nem degradação significativa da estrutura, fatores considerados essenciais para o uso em ambientes reais, como edifícios, sistemas solares térmicos ou processos industriais de recuperação de calor.

Bateria térmica feita de biochar de nim armazena calor com alta eficiência - Tecnologia & Inovação

Imagem: Tecnologia & Inovação

A confiabilidade operacional amplia as possibilidades de integrar o material a soluções de armazenamento para fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica. Durante períodos de baixa geração, o calor acumulado pode ser liberado para aquecimento de água, climatização de ambientes ou alimentação de processos industriais leves, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis.

Por utilizar resíduos agrícolas abundantes em regiões tropicais e subtropicais, a tecnologia também sinaliza viabilidade econômica. O nim é amplamente cultivado para fins medicinais e agroflorestais, gerando subprodutos que normalmente não têm destino de alto valor agregado. A transformação em biochar qualifica esses resíduos como insumos para soluções energéticas sustentáveis.

Os autores consideram que a pesquisa abre caminho para novas rotações de biomassa em sistemas de armazenamento térmico, com potencial de expansão para outras matérias-primas vegetais. Futuras investigações incluirão a avaliação de desempenho em escala piloto e a análise de custos em comparação com materiais comerciais de mudança de fase.

Ao combinar captura de carbono, reaproveitamento de resíduos e suporte às energias renováveis, a bateria térmica derivada das sementes de nim apresenta-se como alternativa promissora para conter emissões e ampliar a segurança energética em longo prazo.

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