O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) prevê colocar em operação, já em 2026, um supercomputador dedicado à inteligência artificial (IA). O equipamento integra o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que soma R$ 23 bilhões, e contará com investimento específico de R$ 1,8 bilhão. A expectativa é que a máquina figure entre as cinco mais potentes do mundo, segundo Hugo Valadares, diretor do Departamento de Ciência, Tecnologia e Inovação Digital do MCTI.
Concorrência pública em elaboração
O processo para selecionar fornecedor e local segue em fase de elaboração. Antes da publicação do edital, o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) conduziu estudos de viabilidade técnica e de infraestrutura. Entre as exigências estão fornecimento robusto de energia elétrica e disponibilidade de água para o sistema de resfriamento. De acordo com Valadares, várias cidades já manifestaram interesse em receber o equipamento e governadores têm buscado o ministério semanalmente para apresentar propostas.
O objetivo principal é ampliar o acesso de universidades, centros de pesquisa e empresas nacionais a capacidade de processamento avançado. Hoje, estima-se que 60 % da demanda brasileira por computação de alto desempenho seja atendida por data centers no exterior. Com o novo supercomputador, o governo pretende reduzir essa dependência e fortalecer a soberania sobre dados sensíveis.
Uso compartilhado e possíveis ajustes regulatórios
A máquina deverá servir a múltiplas finalidades, desde projetos acadêmicos até testes de startups. Para facilitar o uso, o MCTI avalia a possibilidade de ajustes regulatórios que reduzam burocracias no acesso à infraestrutura. A pasta não detalhou, entretanto, quais mudanças poderão ser necessárias.
A iniciativa também dialoga com metas de longo prazo do PBIA, entre elas a criação de modelos de linguagem em português. Valadares cita o projeto Soberania, desenvolvido no Piauí com base nos modelos chineses Qwen e DeepSeek, como exemplo de solução adaptada ao contexto nacional. Embora o governo ainda alimente a ambição de construir um “ChatGPT brasileiro”, a prioridade atual é aproveitar os recursos para formar pessoal qualificado e aprimorar tecnologias de IA já existentes no país.
Vantagens competitivas e limitações orçamentárias
Apesar dos investimentos anunciados, o diretor reconhece que o Brasil não disputará em igualdade com Estados Unidos e China, que aplicam centenas de bilhões de dólares em IA. Valadares compara a situação a uma “liga dos campeões” tecnológica: enquanto as duas potências jogam em divisão superior, o Brasil busca atuar dentro de suas possibilidades econômicas e capacidade de formação de profissionais.
Imagem: Tecnologia Inovação Notícias
Uma das apostas do governo para compensar a diferença de recursos é a base de dados públicas extensa e diversificada. Cadastros como DataSUS, Receita Federal e CadÚnico são frequentemente apontados como ativos valiosos para treinamentos de algoritmos. A integração desses sistemas é conduzida por iniciativas como a Infraestrutura Nacional de Dados (IND) e a Carteira de Identidade Nacional, que visam oferecer respostas mais rápidas e eficientes aos cidadãos.
Horizonte de quatro anos e desafio de continuidade
O PBIA estabelece metas para um ciclo de pouco mais de quatro anos, alinhado ao período do atual governo. Valadares afirma que garantir a continuidade dependerá da prioridade que futuras gestões atribuirão ao tema. Ainda assim, avalia que o lançamento do plano já representa um avanço, pois coloca o país como participante do desenvolvimento global de IA em áreas compatíveis com sua economia, universidades e centros de pesquisa.
A implementação do supercomputador em 2026 simboliza um dos passos centrais desse esforço. Além de prover capacidade de cálculo local, a iniciativa busca criar condições para que pesquisadores nacionais explorem grandes volumes de dados sem recorrer a plataformas estrangeiras, estimulando a inovação e a competitividade do setor de tecnologia brasileiro.





