Cabos submarinos sustentam 99% da internet e ganham novo plano de resiliência

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A rede de cabos submarinos que percorre o fundo dos oceanos carrega cerca de 99 % de todo o tráfego internacional da internet, segundo Tomas Lamanauskas, vice-secretário-geral da União Internacional de Telecomunicações (UIT). Com a dependência mundial de serviços digitais a crescer de forma acelerada, governos e indústria articulam estratégias para reforçar a segurança, acelerar reparações e ampliar a capacidade dessas infraestruturas.

Infraestrutura crítica e expansão contínua

Hoje existem mais de 500 cabos comerciais em operação, somando aproximadamente 1,7 milhão de quilómetros de fibras ópticas que ligam continentes, mercados financeiros e centros de dados. O conceito, entretanto, é antigo: em 1850, Reino Unido e França concluíram o primeiro cabo telegráfico transmanche. Desde então, a tecnologia evoluiu do telégrafo para a telefonia e, mais recentemente, para os links de alta velocidade que suportam videochamadas, streaming e transações bancárias.

A instalação segue um processo meticuloso. Antes do lançamento, equipas de geologia marinha analisam o relevo para reduzir riscos ambientais e minimizar pontos de tensão. Em seguida, navios especializados desenrolam os cabos, que podem ficar a centenas ou milhares de metros de profundidade. Cada sistema é projetado para funcionar durante cerca de 25 anos; muitos dos cabos de fibra óptica instalados no início dos anos 2000 aproximam-se agora do fim do ciclo de vida concebido.

Incidentes frequentes e alto impacto económico

A UIT estima entre 150 e 200 ocorrências por ano, média de três a quatro por semana. Cerca de 80 % resultam de atividades humanas como âncoras de navios e redes de pesca, enquanto os 20 % restantes derivam de fenómenos naturais, entre eles sismos, deslizamentos submarinos ou erupções vulcânicas. Cada falha pode comprometer serviços financeiros, plataformas de emergência e o acesso regular à internet em regiões inteiras.

O arquipélago de Tonga ilustra a vulnerabilidade: desde 2019, o país registou três interrupções graves motivadas por terramoto, erupção vulcânica e ancoragem indevida. Segundo Lamanauskas, atrasos de apenas um milissegundo em rotas críticas bastam para afetar transações na bolsa de Nova Iorque ou em outros centros financeiros globais.

Quando ocorre um rompimento, engenheiros identificam o ponto exato por análise de sinal e despacham navios-oficina para recolher e emendar o trecho danificado. O desafio maior costuma ser administrativo: cada reparo exige autorizações de múltiplas jurisdições costeiras, o que prolonga prazos de mobilização para dias ou mesmo semanas.

Custos elevados e oferta limitada de serviços

Projetar e instalar um novo cabo exige investimento significativo e longa preparação. Sistemas de menor extensão custam alguns milhões de dólares; ligações intercontinentais podem ultrapassar centenas de milhões. Poucas empresas dominam a fabricação dos cabos e a operação dos navios de lançamento, o que reduz a concorrência e alonga filas de encomenda.

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Imagem: ilustrativa

Agenda internacional para proteção e manutenção

Como agência das Nações Unidas para tecnologias digitais, a UIT coordena normas técnicas e promove boas práticas de resiliência. O seu Órgão Consultivo Internacional sobre a Resiliência dos Cabos Submarinos reúne governos, operadores e especialistas para:

  • padronizar procedimentos de instalação e reparo;
  • simplificar processos de licenciamento e autorizações costeiras;
  • mitigar riscos de danos acidentais por atividades marítimas;
  • incentivar rotas alternativas que aumentem a diversidade geográfica;
  • adotar critérios de sustentabilidade ambiental.

Em 2025, a primeira Cimeira sobre Resiliência dos Cabos Submarinos, realizada em Abuja (Nigéria), reforçou a necessidade de cooperação global. A segunda edição está agendada para 2 e 3 de fevereiro de 2026, no Porto, Portugal. O encontro analisará recomendações dos grupos de trabalho da UIT, focadas em acelerar reparos, reforçar pontos de amarração e ampliar cobertura a regiões ainda pouco conectadas.

Próximos passos para a segurança da conectividade

Com o tráfego de dados a crescer exponencialmente devido a serviços cloud, inteligência artificial e 5G, a demanda por rotas de alto desempenho só tende a aumentar. Paralelamente, cabos instalados há duas décadas aproximam-se do período de substituição. Para Lamanauskas, fortalecer a resiliência passa por encurtar prazos de licenciamento, estabelecer pontos de contacto governamentais claros e sensibilizar a comunidade marítima a fim de prevenir que âncoras ou faixas de pesca danifiquem a infraestrutura.

A combinação de investimento privado, padronização internacional e atuação conjunta entre setores público e privado deverá determinar a robustez da malha submarina durante as próximas décadas. Sem essas “autoestradas invisíveis”, o ecossistema digital global não consegue manter o ritmo atual de inovação e de dependência de serviços online.

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