O desfile do Grupo Especial do Rio de Janeiro em 2026 terá forte ênfase em histórias de vida e na valorização de referências afro-brasileiras. Dos 12 temas anunciados, oito dedicam-se a personalidades da arte, da política e da religião, enquanto os demais aprofundam manifestações culturais de matriz africana ou movimentos musicais.
Biografias dominam a avenida
Entre os homenageados está o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tema da Acadêmicos de Niterói com o enredo “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil”. A Imperatriz Leopoldinense levará à Sapucaí “Camaleônico”, centrado na carreira do cantor Ney Matogrosso. Já a Mocidade Independente de Padre Miguel presta tributo à compositora Rita Lee em “Rita Lee, a Padroeira da Liberdade”.
O protagonismo feminino prossegue com a Unidos da Tijuca, que apresentará “Carolina Maria de Jesus”, sobre a escritora mineira reconhecida por retratar a realidade das favelas brasileiras. No universo do samba, a Unidos de Vila Isabel revisitará a obra do compositor e pintor Heitor dos Prazeres em “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”.
Outras escolas adotam o mesmo formato biográfico. O Acadêmicos do Salgueiro dedicará o desfile à carnavalesca Rosa Magalhães, criadora de enredos campeões, enquanto a Viradouro preparou “Pra Cima, Ciça”, em homenagem ao mestre de bateria Moacyr da Silva Pinto, o Mestre Ciça. A Mangueira, por sua vez, destacará o curandeiro amapaense Raimundo dos Santos Souza, o Mestre Sacaca, em “Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra”.
A Portela completa a lista ao reconhecer a trajetória do líder religioso Custódio Joaquim de Almeida no enredo “O Mistério do Príncipe do Bará”.
Cultura afro e contracultura também ganham espaço
As escolas que não optaram por tramas biográficas concentraram-se em expressões culturais. O Paraíso do Tuiuti apresentará “Lonã Ifá Lukumi”, dedicado à Santeria, religião afro-cubana que mescla elementos iorubás e católicos. Já a Beija-Flor de Nilópolis traz “Bembé do Mercado”, sobre um ritual que integra o patrimônio imaterial do Recôncavo Baiano.
A Acadêmicos do Grande Rio aposta na cena musical recifense dos anos 1990 com “A Nação do Mangue”, que aborda o Manguebeat, movimento liderado por Chico Science e Nação Zumbi.
Calendário do desfile
Pelo segundo ano consecutivo, os desfiles ocorrerão em três noites na Marquês de Sapucaí:
Domingo – 15 de fevereiro
Acadêmicos de Niterói | Imperatriz Leopoldinense | Portela | Estação Primeira de Mangueira
Imagem: Últimas Notícias
Segunda – 16 de fevereiro
Mocidade Independente de Padre Miguel | Beija-Flor de Nilópolis | Acadêmicos do Viradouro | Unidos da Tijuca
Terça – 17 de fevereiro
Paraíso do Tuiuti | Unidos de Vila Isabel | Acadêmicos do Grande Rio | Acadêmicos do Salgueiro
Ensaios técnicos gratuitos
Os testes de pista ocorrem entre 30 de janeiro e 8 de fevereiro, com acesso livre ao público no Sambódromo. As apresentações reúnem quatro agremiações por noite e servem para ajustar evolução, bateria e interação com arquibancadas antes do julgamento oficial.
Função pedagógica dos enredos
Para o sociólogo Rodrigo Reduzino, as escolas de samba surgiram com a missão de refletir temas que não figuravam nos registros oficiais. Segundo ele, desde a década de 1930, os desfiles abordam questões raciais e relatos silenciados da história brasileira. A historiadora Nathalia Sarro, diretora cultural da Vila Isabel, reforça que os enredos “educam, geram identidades e mobilizam sentimentos”.
Na avaliação dos especialistas, escolher figuras como Carolina Maria de Jesus e Mestre Sacaca contribui para ampliar referências de protagonismo negro e divulgar legados pouco conhecidos fora dos círculos acadêmicos. Já a presença de Lula, Rita Lee e Ney Matogrosso evidencia a convivência de temas populares com visões políticas e artísticas de resistência.
Evolução do formato dos desfiles
Até 1983, o Grupo Especial desfilava em um único dia, ainda nas avenidas do centro do Rio. Com a inauguração do Sambódromo em 1984, a disputa foi distribuída em duas noites. A edição de 2025 inaugurou o modelo de três dias, mantido para 2026, permitindo melhor divisão do público nas arquibancadas e mais tempo de exposição para as escolas.
Os enredos de 2026 confirmam a tendência de utilizar o Carnaval como plataforma para narrativas históricas, afirmação identitária e preservação cultural. A expectativa da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) é que essa abordagem fortaleça o interesse do público e incentive debates sobre memória, diversidade e liberdade criativa.





