CES 2024 destaca robôs com IA, mas uso doméstico segue fora do alcance

LAS VEGAS, Estados Unidos — A edição de 2024 da Consumer Electronics Show (CES) colocou a inteligência artificial no centro das atenções, com grande parte dos expositores a apresentar dispositivos equipados com algum tipo de “IA física”. Embora os protótipos tenham chamado a atenção, o consenso entre especialistas e investidores é que os robôs humanoides destinados ao ambiente doméstico ainda demorarão a chegar ao mercado a preços acessíveis.

Robótica domina vitrines, mas enfrenta limitações técnicas

Empresas de diferentes áreas levaram à feira aparelhos capazes de executar tarefas como jogar pôquer, dobrar origamis e dançar com visitantes. Modelos desenvolvidos pela sul-coreana LG e por start-ups menos conhecidas exemplificaram a tentativa de traduzir algoritmos de IA em movimentos humanos. No entanto, a velocidade reduzida, a autonomia limitada das baterias e a dificuldade em lidar com situações não programadas revelaram que o caminho até um robô doméstico confiável continua longo.

Analistas ouvidos no evento atribuem o avanço lento a três fatores: potência de processamento ainda insuficiente para decisões em tempo real, consumo energético elevado e custos de produção incompatíveis com o consumidor comum. Consequentemente, produtos plenamente funcionais para uso quotidiano não são esperados num futuro próximo.

Grandes fabricantes apostam na convergência entre hardware e software

A chinesa Lenovo promoveu uma apresentação no Las Vegas Sphere que contou com a presença dos CEOs da Nvidia, Jensen Huang, e da AMD, Lisa Su. A empresa mostrou a plataforma de assistente de voz Qira AI, concebida para operar em múltiplos dispositivos e oferecer serviços integrados, incluindo reservas de viagens semelhantes às da Expedia.

Meta anunciou melhorias nos óculos Ray-Ban Display e na pulseira Neural Band, lançados em 2023, acrescentando funcionalidades como transmissão de vídeo em direto. Já o Google levou o modelo generativo Gemini a televisores e a equipamentos domésticos conectados, reforçando a aposta em processamento local.

Dispositivos curiosos revelam tendência de “IA para tudo”

A feira também reuniu produtos de nicho que aplicam algoritmos de aprendizagem automática a tarefas específicas. Entre os destaques estiveram:

  • Um aparelho de lavagem a seco de US$ 599 capaz de identificar o tipo de tecido e concluir a limpeza em três minutos.
  • Conjuntos de cortadores de cabelo que sugerem o comprimento ideal e orientam o utilizador durante o corte.
  • Avatares tridimensionais programados para proferir mensagens personalizadas com diferentes vozes.
  • Um “animal de estimação de bolso” que, segundo os desenvolvedores, adapta a personalidade ao dono ao longo do tempo.

Para Jay Goldberg, analista da Seaport Research, muitos desses itens antes eram classificados apenas como “dispositivos inteligentes”. O uso intensivo da sigla IA pode, segundo ele, funcionar mais como estratégia de marketing do que como real salto tecnológico.

Chips com recursos dedicados devem levar IA ao dispositivo final

Grande parte dos modelos de inteligência artificial ainda é executada em centros de dados. Contudo, o aumento dos custos de processamento tem incentivado a migração para o chamado edge computing, em que as operações correm diretamente em laptops, telemóveis ou eletrodomésticos.

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Imagem: Internet

A Intel apresentou o processador Panther Lake AI para portáteis, o primeiro da companhia fabricado no processo de 18 Ångströms (18A). A AMD revelou nova linha de microprocessadores focada em PC com IA, enquanto a Arm destacou a procura crescente por soluções com instruções específicas para aprendizagem automática. “A IA está a impulsionar um ciclo completo de inovação e procura”, afirmou Chris Bergey, responsável pela divisão de clientes da Arm.

No mesmo sentido, Aravind Srinivas, CEO da Perplexity AI, comentou que manter cargas de trabalho exclusivamente na nuvem “está a tornar-se financeiramente insustentável”. A expectativa é que, à medida que mais aparelhos ganhem unidades de processamento neural, experiências de IA deixem de depender de ligação permanente à internet.

Mercado observa potencial bilionário, mas cronograma é incerto

Quatro anos após o lançamento do ChatGPT, investidores tentam identificar quais equipamentos poderão transformar-se em negócios multibilionários. De gadgets voltados a cuidados pessoais a robôs de serviço, a variedade de propostas evidenciou a amplitude da aposta na chamada IA física. Ainda assim, a falta de padronização e os desafios de produção em escala mantêm a cautela.

Ben Bajarin, diretor-executivo da consultoria Creative Strategies, avaliou que o público em geral “ainda não compreende o que um PC com IA pode oferecer que um computador convencional não faça”. Para analistas, a adoção dependerá de casos de uso claros, preços competitivos e integração transparente com rotinas já estabelecidas.

Em resumo, a CES 2024 confirmou a transição da inteligência artificial do software para o mundo tangível. Porém, limitações técnicas, custos elevados e retorno de investimento incerto indicam que a visão de robôs domésticos totalmente autónomos permanece, por enquanto, mais próxima do laboratório do que da sala de estar.

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