Ciência revela que é o carbono, e não o ferro, que responde ao magnetismo no aço

Tecnologia e Inovação

Um estudo conduzido por investigadores da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, identificou o verdadeiro responsável pela influência de campos magnéticos nas propriedades do aço: os átomos de carbono. A descoberta corrige uma hipótese mantida durante décadas, segundo a qual o fenómeno estaria ligado sobretudo ao ferro, elemento majoritário neste tipo de liga.

Nova explicação para um efeito antigo

Desde meados do século XX, técnicos da indústria siderúrgica observaram que determinados aços exibiam desempenho mecânico superior quando submetidos a tratamentos térmicos sob campos magnéticos intensos. O mecanismo, porém, nunca foi compreendido em detalhe, o que dificultava calcular a dose exata de calor e magnetismo necessária para otimizar cada lote.

De acordo com os autores Luke Wirth e Dallas Trinkle, a pesquisa demonstra que o magnetismo interfere no movimento dos átomos de carbono dentro do cristal de ferro. Quando a temperatura se aproxima do ponto de Curie — limite em que o ferro perde o ordenamento magnético —, um campo aplicado do exterior consegue alinhar os “spins” dos átomos de ferro. Esse alinhamento cria uma barreira energética maior, retardando a difusão do carbono pelas microestruturas do metal.

O fenómeno foi reproduzido através de uma abordagem computacional denominada média espaço-spin. O método avaliou simultaneamente a temperatura de tratamento e a intensidade do campo, mapeando como a estrutura cristalina responde em cada situação.

Como o carbono se desloca dentro do aço

No interior de uma liga ferro-carbono, os átomos de carbono ocupam cavidades octaédricas formadas pelos átomos de ferro. Para migrar de uma “gaiola” para outra, o carbono precisa vencer uma barreira de energia. Segundo as simulações, quanto mais ordenados estiverem os spins dos átomos de ferro, maior é essa barreira, porque a rede cristalina se torna menos simétrica e oferece menor espaço de passagem.

Quando o material está distante da temperatura de Curie, os spins encontram-se desordenados; nessa condição, a estrutura fica relativamente isotrópica e a difusão de carbono ocorre com mais facilidade. À medida que o campo magnético impõe ordem, o fluxo diminui, alterando as transformações de fase que definem dureza, tenacidade e outras propriedades críticas do aço.

Consequências para energia, custos e emissões

Um dos principais objetivos do sector é reduzir a temperatura de produção, hoje responsável por elevado consumo de energia e geração de CO₂. Compreender o papel do carbono permite prever de forma quantitativa a quantidade de magnetismo necessária para alcançar a microestrutura desejada, evitando ciclos térmicos excessivamente longos ou quentes.

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Imagem: Tecnologia & Inovação

Os autores apontam ainda que o mesmo princípio pode estender-se a outras ligas metálicas nas quais a difusão atómica controla o resultado final. A abordagem abre caminho para processos mais eficientes, capazes de combinar calor e campo magnético de modo calculado, com potencial de diminuir custos operacionais e emissões associadas.

Próximos passos da investigação

Embora o estudo tenha sido realizado por simulação, os investigadores planeiam validar os resultados em ensaios de laboratório, medindo diretamente a velocidade de difusão do carbono sob diferentes intensidades de campo e faixa térmica. A confirmação experimental permitiria criar tabelas de referência para engenheiros metalúrgicos, facilitando a adoção da técnica em escala industrial.

Além disso, a equipa pretende avaliar se elementos de liga comuns — como manganês, cromo ou níquel — alteram o efeito magnético sobre o carbono. Caso se confirme um comportamento similar, será possível desenhar aços específicos para aplicações que exigem combinação de dureza e ductilidade, sem penalizar o consumo de energia no forno.

Ao identificar o carbono como agente central, a investigação resolve um mistério de longa data e fornece um modelo físico que pode orientar desenvolvimentos futuros na metalurgia. A expectativa é que os novos conhecimentos se traduzam em aço mais sustentável, produzido com menos recursos e menor impacto ambiental.

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