O consumo de medicamentos psiquiátricos no Brasil registou crescimento de 4,5% no volume de caixas adquiridas entre janeiro de 2022 e agosto de 2025. O dado consta de um levantamento realizado pela epharma, plataforma que administra programas corporativos de benefícios em medicamentos, a partir das compras efetuadas por seus usuários nas cinco regiões do país.
Alta concentra-se na população economicamente ativa
No mesmo período analisado, o número de beneficiários do Programa de Benefícios em Medicamentos (PBM) da companhia avançou 38%. O maior salto de consumo foi verificado entre pessoas de 26 a 45 anos, faixa etária que se mantém inserida no mercado de trabalho e, portanto, mais exposta a fatores de pressão profissional.
Os dados da epharma indicam que os antidepressivos lideram a lista dos fármacos mais comprados, seguidos por ansiolíticos e estabilizadores de humor. O tempo médio de tratamento por usuário permaneceu estável, entre 56 e 60 dias, o que sugere a adoção de regimes de longo prazo, e não apenas em fases de crise aguda.
Burnout impulsiona afastamentos e demanda por tratamento
Informações do Ministério da Previdência Social mostram avanço expressivo nos afastamentos por burnout. Entre 2021 e 2024, os auxílios-doença concedidos por esgotamento profissional aumentaram 493%. De acordo com a International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR), esse problema já afeta 30% da população brasileira.
Para o psiquiatra Rodrigo Martins Leite, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HC-FMUSP), a procura por atendimento especializado deixou de ocorrer apenas em situações de crise. “A sociedade recorre ao psiquiatra também para manter desempenho no trabalho ou nos estudos”, afirma. O especialista ressalta que a redução do estigma em torno da saúde mental facilita a busca por ajuda.
Fatores sociais, econômicos e regulamentares entram em jogo
Leite associa o aumento da medicação a crises sociais, dificuldades econômicas, solidão, cobranças profissionais e imediatismo por resultados. “Temos uma geração cronicamente exposta ao burnout e à pressão por performance, enquanto o custo de vida sobe”, observa o médico, alertando para o impacto das mudanças sociais na saúde psíquica.
O diretor de customer success da epharma, Christiano Fonseca Moreira, atribui a tendência também ao maior interesse das empresas em cuidar da saúde mental dos colaboradores. Segundo ele, essa preocupação ganhou força após a pandemia e deverá crescer com a atualização da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que passa a exigir, a partir de maio, a inclusão de riscos psicossociais — como assédio moral, estresse e sobrecarga — nos programas de segurança e saúde no trabalho.
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Medicamento ajuda, mas não resolve tudo
Embora reconheça a relevância da farmacoterapia como “catalisador” de mudanças no estilo de vida, Leite defende uma abordagem mais ampla. Para o psiquiatra, a dificuldade de acesso a outras formas de cuidado faz com que a medicação se torne a opção mais disponível e imediata. Ele sugere investimentos em pesquisa, políticas públicas de prevenção, programas de qualidade de vida no trabalho, combate à solidão e fortalecimento de redes de suporte social.
Moreira concorda que a implementação plena da NR-1 e a ampliação de recursos empresariais destinados à saúde mental podem elevar ainda mais a procura por tratamentos medicamentosos. “Desde a pandemia, observamos um movimento de atenção crescente ao tema, que agora se consolida em debates institucionais e governamentais”, explica.
Panorama aponta para continuidade do crescimento
O cenário descrito pelo levantamento da epharma e pelos dados governamentais sinaliza que o consumo de medicamentos psiquiátricos deve continuar em alta. Fatores como pressão no ambiente de trabalho, novas exigências regulatórias e maior conscientização sobre saúde mental formam um conjunto de elementos que tende a manter a curva ascendente nos próximos anos.
Especialistas concordam que essa tendência reforça a necessidade de políticas integradas que combinem tratamento medicamentoso, suporte psicológico, ações preventivas e melhoria das condições laborais, visando reduzir o impacto dos transtornos mentais na população economicamente ativa.





