Data centers no Brasil devem consumir energia equivalente à cidade de São Paulo em 5 anos

Tecnologia e Inovação

Os centros de dados instalados no Brasil deverão gastar, em 2029, a mesma quantidade de energia elétrica que a cidade de São Paulo utiliza hoje. A projeção consta de um estudo da Brasscom, associação que representa empresas de tecnologia da informação e comunicação, divulgado em 29 de março. O documento calcula que essas instalações passarão dos atuais 11,3 terawatt-hora (TWh) para 27 TWh em cinco anos.

Crescimento acelerado do consumo elétrico

Em 2024, os data centers respondem por 1,7 % da eletricidade consumida no país. Caso o cenário previsto se confirme, a participação subirá para 3,6 % em 2029. Mesmo diante desse avanço, o setor seguirá abaixo de segmentos como metalurgia (9,2 %), agropecuária (5,3 %) e alimentos e bebidas (5 %).

Para dimensionar o impacto, a Brasscom compara o volume atual com o abastecimento de Guarulhos. Os 11,3 TWh já seriam suficientes para manter a terceira cidade mais populosa de São Paulo funcionando por três anos. Em 2029, a demanda chegará ao patamar de São Paulo capital, maior centro urbano do país.

O incremento no consumo acompanha a expansão da capacidade instalada. Segundo a pesquisa, a potência operacional dos data centers saltou de 281 megawatts (MW) em 2019 para 843 MW em 2024. A curva de crescimento indica 2.192 MW em 2029 e 3.144 MW dois anos depois. Entre os motivos listados estão a popularização de serviços baseados em nuvem, a digitalização de setores tradicionais e a adoção de aplicações de inteligência artificial, que exigem processamento intensivo.

Uso de água permanece reduzido em comparação

Além da energia, o estudo avaliou o consumo hídrico das instalações. Em 2022, os centros de dados representaram apenas 0,003 % do total nacional, muito abaixo de atividades como agricultura irrigada (53 %) e abastecimento humano (24 %). A maior parte das unidades opera em circuito fechado: a água entra uma vez e é reutilizada no sistema de refrigeração.

Cada megawatt de capacidade requer, em média, 23 mil litros para manter a temperatura sob controle. Mesmo assim, a Brasscom aponta avanços de eficiência. Equipamentos de climatização permitem trabalhar com até 27 °C — no passado, a faixa era de 14 °C a 16 °C —, reduzindo a necessidade de resfriamento intenso.

Eficiência energética ganha espaço

A pesquisa indica ganho de 10 % na eficiência dos data centers brasileiros nos últimos anos. Novas gerações de processadores, sistemas de ar-condicionado mais precisos e adoção de tecnologias de condensação a ar contribuíram para o resultado. O levantamento também mostra que oito em cada dez unidades utilizam dry coolers, que transferem calor para o ar ambiente e diminuem o consumo hídrico.

Apesar do avanço, a Brasscom reforça que os investimentos em eficiência precisam acompanhar a expansão da capacidade. A associação observa que 60 % do processamento de dados de usuários brasileiros ocorre no exterior, realidade que tende a mudar conforme novos projetos entram em operação no país.

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Imagem: NewsUp Brasil

Comparação com outras matrizes e desafios futuros

O estudo destaca que 87 % da matriz elétrica brasileira é composta por fontes renováveis, cenário que difere dos Estados Unidos, onde fontes fósseis ainda representam parcela significativa da geração. Para a Brasscom, essa característica reduz o impacto ambiental direto do aumento no consumo de energia pelos data centers nacionais.

Entretanto, a entidade defende que o crescimento seja acompanhado pela oferta de infraestrutura elétrica robusta. A preocupação é evitar gargalos semelhantes aos vistos na Virgínia, região dos Estados Unidos conhecida como “Corredor dos Data Centers”, onde concessionárias chegaram a limitar novos projetos por falta de capacidade de fornecimento.

No Brasil, os próximos movimentos incluem a conexão de grandes polos de nuvem e a instalação de unidades voltadas a aplicações de inteligência artificial. Entre as empresas com projetos em andamento estão Amazon, Microsoft, Google e operadores especializados como Ascenty, Equinix, Elea e Scala.

Projeções e necessidade de planejamento

A Brasscom estima que, até 2031, os data centers brasileiros ultrapassarão 3 gigawatts (GW) de potência. Para atender à nova demanda sem pressionar o sistema elétrico, o país precisará ampliar investimentos em geração renovável, linhas de transmissão e subestações. A associação entende que dados objetivos sobre consumo ajudam a fundamentar políticas públicas e a orientar a expansão de maneira sustentável.

Embora o salto energético seja expressivo, a entidade reforça que o processamento de dados é hoje uma infraestrutura estratégica para a economia. Varejo, mineração, finanças e serviços públicos dependem cada vez mais de cloud computing, aprendizagem de máquina e análise de grandes volumes de informação. Sem novas instalações, parte dessas operações continuaria dependente de servidores estrangeiros, ampliando custos e riscos de latência.

O relatório conclui que o desafio não é frear o crescimento dos data centers, mas planejar a expansão com eficiência, diversificação de fontes e uso responsável de recursos naturais. A comparação com a cidade de São Paulo serve para contextualizar o fenômeno e estimular medidas que equilibrem desenvolvimento digital e responsabilidade ambiental.

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