A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, manifestou público agradecimento ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao povo brasileiro pelo apoio prestado após a série de eventos que culminaram no sequestro do chefe de Estado venezuelano, Nicolás Maduro, e da primeira-dama, Cília Flores. Os dois foram capturados por militares dos Estados Unidos em 3 de janeiro e permanecem detidos em Nova Iorque, segundo o governo de Caracas.
Conversas com líderes regionais e europeus
Em declarações divulgadas nesta sexta-feira (9), Rodríguez detalhou ter mantido contactos telefónicos com Lula, com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez. Durante esses diálogos, a dirigente forneceu informações sobre ataques armados contra território venezuelano que, de acordo com o Executivo, provocaram mais de 100 vítimas entre civis e militares.
A presidente interina realçou que todos os interlocutores receberam um panorama detalhado da situação e foram convidados a acompanhar os desdobramentos por meio de canais diplomáticos. Rodríguez salientou que a troca de informações permitiu “avançar para uma agenda de cooperação bilateral baseada no respeito à soberania e no diálogo entre os povos”.
Segundo a venezuelana, Lula reiterou solidariedade diante da crise e colocou o Brasil à disposição para esforços que preservem a estabilidade regional. Rodríguez frisou que o governo de Brasília tem sido “fundamental” para a articulação de apoios multilaterais orientados à resolução pacífica do impasse.
Recurso exclusivo à diplomacia
Rodríguez afirmou que Caracas pretende enfrentar o episódio “por meio de instrumentos diplomáticos”, descartando qualquer reação militar. A dirigente sustenta que a estratégia tem dois objetivos principais: defender a soberania nacional e preservar a paz interna. “A Venezuela recorrerá a todos os mecanismos permitidos pelo direito internacional para reverter a agressão”, declarou.
Durante os contatos, a presidente interina denunciou o que classificou como “graves violações” do direito internacional, entre elas a suposta quebra da imunidade de jurisdição que protege chefes de Estado estrangeiros. Rodríguez argumentou que a captura de Maduro e de Cília Flores configura afronta direta a convenções que garantem imunidade a autoridades em deslocamento oficial.
Apoio de Petro e Sánchez
No diálogo com Gustavo Petro, Rodríguez relatou compromisso mútuo de enfrentar problemas que afetam simultaneamente Colômbia e Venezuela, especialmente na zona de fronteira. A meta, segundo ela, é construir soluções conjuntas de segurança e desenvolvimento sem interferência externa. Petro, por sua vez, teria reforçado a importância da estabilidade venezuelana para a paz sul-americana.
Com Pedro Sánchez, a conversa concentrou-se em possíveis iniciativas bilaterais que beneficiem ambas as sociedades. Rodríguez agradeceu ao primeiro-ministro espanhol pela condenação pública da operação norte-americana. A dirigente venezuelana citou interesse em estreitar cooperação económica, energética e cultural com Madrid, tema que deverá integrar encontros futuros.
Imagem: Ultimas Notícias
Sinal de Doha e expectativa por mediação
Além dos líderes de Brasil, Colômbia e Espanha, a presidente interina mencionou mensagem enviada ao emir do Catar, Tamim bin Hamad Al-Thani. Caracas diz reconhecer o empenho de Doha em facilitar um canal de diálogo entre Washington e o governo venezuelano. Rodríguez qualificou a disposição do Catar como “passo importante” para eventuais negociações que levem à libertação de Maduro e ao restabelecimento de relações institucionais.
Contexto das tensões
A captura de Nicolás Maduro ocorreu poucos dias após a administração dos Estados Unidos endurecer críticas ao processo eleitoral venezuelano. Militares norte-americanos teriam interceptado a aeronave presidencial em espaço aéreo internacional e transferido o casal para custódia federal em Nova Iorque. Washington não se pronunciou oficialmente sobre as acusações, enquanto Caracas exige “libertação imediata” do presidente e da primeira-dama.
Internamente, a Venezuela enfrenta clima de incerteza política e económica agravado pela ausência do chefe de Estado. O Executivo provisório, liderado por Delcy Rodríguez, sustenta que mantém o controle institucional e assegura a prestação de serviços essenciais. Contudo, organizações civis relatam protestos esporádicos e aumento da pressão social.
Próximos passos
Rodríguez adiantou que o Ministério das Relações Exteriores venezuelano prepara nota formal a ser enviada à Organização das Nações Unidas, ao Conselho de Segurança e a outros organismos multilaterais. O documento deve solicitar avaliação urgente do caso sob a ótica do respeito à soberania e da imunidade de chefes de Estado.
Enquanto isso, autoridades venezuelanas reforçaram contactos com embaixadas parceiras para mobilizar apoio. Segundo Delcy Rodríguez, a articulação diplomática inclui consulta a especialistas em direito internacional de vários países, com o objetivo de sustentar eventual ação perante tribunais internacionais.
Não há, até o momento, previsão oficial para audiência ou julgamento de Nicolás Maduro nos Estados Unidos. A defesa do mandatário alega inexistência de base legal para a detenção e reivindica retorno imediato à Venezuela. O governo interino insiste que, até a resolução do caso, continuará a conduzir assuntos de Estado dentro dos marcos constitucionais.





