Uma equipa internacional identificou material genético de uma bactéria semelhante à que provoca a sífilis em ossos humanos com 5.500 anos, encontrados no abrigo rochoso de Tequendama, região montanhosa da área metropolitana de Bogotá, na Colômbia. O achado, detalhado na revista Science, adianta em milénios a linha do tempo conhecida para a presença do Treponema pallidum em populações americanas.
DNA antigo aponta para linhagem primitiva do Treponema pallidum
Os investigadores analisaram restos de um homem de meia-idade, estimado entre 45 e 60 anos no momento da morte. Nos fragmentos ósseos, técnicas de sequenciação revelaram uma variante muito antiga do T. pallidum, grupo bacteriano cujas subespécies atuais provocam a sífilis, o bejel e a bouba. A linhagem pré-histórica não corresponde exatamente a nenhuma das formas modernas, mas exibe genes de virulência já capazes de invadir tecidos humanos.
Segundo os autores, liderados por Davide Bozzi e Anna-Sapfo Malaspinas, da Universidade de Lausanne (Suíça), e Elizabeth Nelson, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz (Estados Unidos), esses genes indicam que a adaptação ao organismo humano começou antes mesmo do fim da última Era do Gelo, há cerca de 14.000 anos. A data, contudo, ainda carece de confirmação com novas amostras.
Registo recua origem americana da doença
Antes do esqueleto de Tequendama, o vestígio mais antigo do T. pallidum vinha de um sambaqui no litoral de Santa Catarina e tinha cerca de 2.000 anos. A nova evidência triplica essa antiguidade e reforça a hipótese de que o foco original da sífilis e de doenças semelhantes se localiza na faixa tropical do continente americano.
Documentos históricos relatam surtos de sífilis na Europa Ocidental no final do século XV, pouco depois do regresso das primeiras expedições de Cristóvão Colombo. O debate sobre a proveniência do micróbio opunha a ideia de chegada das Américas à possibilidade de uma origem europeia. Os dados genéticos mais recentes inclinam a balança para o Novo Mundo, mostrando que o agente patogénico já circulava entre grupos indígenas milhares de anos antes do contacto com europeus.
Contexto social contrasta com modelo clássisco de epidemias
Grande parte das doenças infecciosas do Velho Mundo surgiu em sociedades agrícolas densamente povoadas, onde plantas domesticadas, animais e humanos conviviam em proximidade. Em Tequendama, porém, as populações continuavam a ser caçadoras-coletoras há 5.500 anos. O cenário sugere que a emergência do T. pallidum não dependeu de aldeias lotadas nem de rebanhos domesticados, mas possivelmente de interações diretas entre caçadores e animais selvagens.
Imagem: Internet
A análise filogenética mostrou semelhanças entre a linhagem colombiana e uma bactéria do mesmo género que infeta coelhos selvagens. Embora não se trate de um ancestral direto, a relação genética levanta a hipótese de que o micróbio possa ter passado de presas animais para humanos durante atividades de caça, prática comum desde o Pleistoceno.
Variações modernas e modos de transmissão
Hoje, três subespécies do T. pallidum são reconhecidas. A T. p. pallidum causa a sífilis, transmitida principalmente por contacto sexual; a T. p. endemicum, responsável pelo bejel, provoca lesões na boca e na pele; e a T. p. pertenue está associada à bouba, que afeta pele, ossos e articulações. Os antibióticos conseguem eliminar todas elas com elevada eficácia quando administrados precocemente.
A descoberta na Colômbia confirma que, muito antes de a doença se tornar um problema de saúde sexual na Europa renascentista, formas ancestrais do patógeno já circulavam em comunidades humanas de baixa densidade populacional. O estudo amplia a compreensão sobre a evolução de agentes infecciosos e demonstra que novos dados arqueogenéticos podem reescrever cronologias tidas como consolidadas.
Os autores reconhecem que faltam peças importantes para completar o percurso histórico do T. pallidum. A equipa planeia examinar mais esqueletos de diferentes regiões e épocas para rastrear mutações e rotas de dispersão do micróbio. Cada novo genoma antigo sequenciado deverá aproximar a ciência de entender como, quando e por que a sífilis se tornou uma das mais persistentes doenças transmissíveis da humanidade.





