A indústria da moda vive um momento de transição que mistura metas de sustentabilidade, avanços tecnológicos e mudanças no comportamento de consumo. Nesse contexto, a designer têxtil portuguesa Constança Entrudo afirmou que Portugal reúne as condições necessárias para se posicionar como um dos principais centros globais do setor nos próximos anos.
Indústria inovadora e talento emergente fortalecem o “Made in Portugal”
Segundo Entrudo, a combinação entre fábricas com alta capacidade de inovação e uma geração de criadores atentos às exigências ambientais vem estimulando uma sinergia favorável ao crescimento do país no cenário internacional. A estilista destaca que o rótulo Made in Portugal ganhou força por conjugar qualidade na produção com investimentos em processos sustentáveis.
O país já produz para diversas marcas de renome mundial, fator que, de acordo com a designer, comprova a maturidade da cadeia de fornecimento local. Ao mesmo tempo, profissionais formados em escolas de moda europeias têm escolhido Lisboa e outras cidades portuguesas para instalar ateliês, ampliando o ecossistema de criação. A presença desses talentos estrangeiros, somada a iniciativas governamentais de incentivo ao setor têxtil, contribui para projetar a imagem de um polo em expansão.
Entrudo argumenta que a proximidade geográfica entre estilistas e fábricas portuguesas facilita a prototipagem rápida, reduz custos logísticos e diminui o impacto ambiental. Essa característica, na avaliação da designer, representa vantagem competitiva sobretudo para marcas que buscam responder de forma ágil às tendências de mercado sem recorrer a cadeias produtivas distantes.
Inteligência artificial impulsiona eficiência e reduz desperdícios
O uso de ferramentas de inteligência artificial (IA) aparece como outro pilar da transformação descrita por Constança Entrudo. Durante participação em um painel nas Nações Unidas sobre design orientado a pessoas e planeta, a criadora explicou que algoritmos já ajudam a otimizar o corte de tecidos, encaixando moldes de modo a aproveitar ao máximo cada metro quadrado de matéria-prima.
Essa automatização permite diminuir o volume de retalhos descartados e, consequentemente, o gasto de recursos naturais. A estilista citou ainda softwares que criam protótipos virtuais, capazes de simular caimento, textura e cores das peças antes da confecção. Com isso, a quantidade de amostras físicas — normalmente produzidas e rejeitadas em ciclos sucessivos — cai de forma significativa.
Além de ganhos ambientais, a IA contribui para reduzir prazos de desenvolvimento e custos operacionais. Empresas que adotam as ferramentas conseguem tomar decisões de compra de forma mais informada, antecipar demandas e ajustar linhas de produção sem grandes interrupções. Para Entrudo, esse conjunto de benefícios pode posicionar Portugal como referência em inovação responsável na moda.
Sinal de alerta para o “craft washing” e a transparência
Apesar do entusiasmo com a tecnologia, a designer portuguesa manifesta preocupação com o risco de que grandes marcas usem termos como craft ou “feito à mão” de maneira inadequada, prática que ela chama de craft washing. Segundo Entrudo, campanhas publicitárias podem adotar a nomenclatura artesanal mesmo quando o processo industrial permanece o mesmo, distorcendo a percepção do consumidor.
Ela pondera que a inteligência artificial, ao automatizar textos e imagens, facilita a criação de narrativas que reforçam esse uso impreciso. Diante disso, defende maior rigor na rastreabilidade dos produtos, desde a origem da matéria-prima até a etapa final de acabamento. A transparência, na avaliação da estilista, é requisito para consolidar a credibilidade do Made in Portugal e evitar que práticas pouco éticas prejudiquem o avanço conquistado pelo setor.
Pesquisa manual preserva criatividade e contexto histórico
Mesmo investindo em soluções digitais, Entrudo mantém processos analógicos para estimular a criatividade. Ela costuma visitar arquivos, museus e centros de documentação a fim de estudar peças antigas e compreender a evolução dos tecidos. Essa imersão manual ajuda a identificar referências culturais e técnicas que, segundo a designer, não podem ser completamente capturadas por algoritmos.
Imagem: ilustrativa
Conhecida por desenvolver a técnica chamada “unwoven” — que desconstrói a trama original e reutiliza fios para formar novas texturas —, a artista aposta na combinação entre experimentação prática e ferramentas digitais. O método permite criar superfícies têxteis fora do tear, fio a fio, diretamente sobre o molde da peça. Dessa forma, reduz-se o consumo de matéria-prima virgem e amplia-se o aproveitamento de resíduos.
Conselhos para novos profissionais em um mercado saturado
Em sua trajetória, Constança Entrudo estudou na Central Saint Martins, em Londres, e fundou a própria marca em Portugal. A experiência levou a designer a concluir que, embora o mercado pareça saturado, sempre existe espaço para propostas genuínas. Ela recomenda que jovens criadores cultivem disciplina para enfrentar períodos de frustração e sigam pesquisando técnicas, matérias-primas e modelos de negócio.
Entrudo recorda que a criatividade não se manifesta de forma constante e que o processo de “tentar, errar e recomeçar” é parte integrante do trabalho. Para ela, questionar a necessidade real de cada peça antes de produzi-la ajuda a combater a sobreprodução e o desperdício, problemas recorrentes na moda.
Potencial de Portugal depende de articulação entre design e indústria
O caminho para transformar Portugal em capital da moda, segundo a estilista, envolve aproximar ainda mais designers das unidades fabris. Essa integração permitiria testar rapidamente novos materiais sustentáveis, ajustar lotes de produção e reforçar o desenvolvimento técnico local. Ao mesmo tempo, revitalizar ofícios tradicionais, como bordados e trabalhos em renda, pode diferenciar as coleções portuguesas no mercado global.
Entrudo sugere que iniciativas públicas e privadas apoiem programas de capacitação para artesãos, bem como parcerias entre universidades e empresas têxteis para pesquisa de fibras ecológicas. A designer entende que o país já possui infraestrutura industrial robusta; falta, porém, consolidar mecanismos de cooperação que alinhem inovação, cultura e responsabilidade ambiental.
Perspectivas e próximos passos
Com cadeias produtivas mais curtas, acesso a tecnologia de ponta e profissionais focados em práticas sustentáveis, Portugal se posiciona para disputar espaço com capitais tradicionais da moda. Especialistas apontam que fatores como logística eficiente, incentivos fiscais e visibilidade em eventos internacionais podem acelerar esse processo.
A declaração de Constança Entrudo reforça uma tendência observada por analistas do setor: consumidores exigem transparência e impacto ambiental reduzido. Países capazes de atender a essas demandas têm maior probabilidade de atrair investimentos, talentos e marcas globais. Se conseguir consolidar as ações propostas por designers e indústria, Portugal poderá, de fato, emergir como referência no universo fashion.






