O Dia Mundial do Rádio, celebrado em 13 de fevereiro, assinala 80 anos do início das transmissões da Rádio das Nações Unidas. A data chama atenção para a permanência desse meio de comunicação em cenários onde outras tecnologias falham ou ainda não chegam.
Informação de confiança em zonas de conflito
Na Faixa de Gaza, 23 estações operavam antes de 7 de outubro de 2023. Todas foram destruídas na sequência dos combates que se seguiram aos ataques do Hamas a Israel. A Zaman FM, dirigida pelo jornalista Rami Al-Sharafi, retomou as transmissões a partir dos escombros do antigo estúdio e, no momento, é a única emissora local em frequência FM. Segundo Al-Sharafi, a procura por notícias é intensa numa região que enfrenta doenças, colapso do sistema educativo e interrupção de serviços públicos.
Na República Democrática do Congo, a Rádio Okapi transmite desde 2002 em francês e em quatro línguas nacionais. Criada no âmbito da missão de paz da ONU (Monusco), a emissora é considerada fonte credível em áreas marcadas por violência e deslocamento. Ouvintes de Bukavu afirmam recorrer à estação para verificar informações, combater rumores e permitir que vítimas relatem o próprio sofrimento.
Na República Centro-Africana, a missão de paz Minusca mantém a Guira FM e apoia rádios comunitárias. Mais de 500 aparelhos foram distribuídos recentemente para ampliar o acesso da população a notícias fiáveis e reduzir boatos que ameaçam viagens, comércio e convivência entre vizinhos.
Serviço público durante desastres naturais
Quando furacões, inundações ou sismos interrompem redes móveis e internet, operadores de rádio amador costumam assegurar o último elo de comunicação. No México, radioamadores ganharam reconhecimento nacional após o sismo de 1985 e continuam ativos na Rede Nacional de Emergência. Durante o Furacão Otis, em 2023, voluntários improvisaram antenas com fios de cobre e transmitiram a situação de áreas isoladas, indicando extensão de danos e rotas acessíveis.
Inclusão e acessibilidade pelo áudio
Na Índia, a Radio Udaan foi lançada em 2014 como a primeira emissora online do país operada exclusivamente por profissionais com deficiência visual. O projeto alcança 125 mil ouvintes em 120 países e aborda temas como direitos de pessoas com deficiência, educação e tecnologia assistiva. O fundador, Danish Mahajan, destaca que conteúdos relativos a temas das Nações Unidas sobre deficiência geram forte interesse no público.
Imagem: ilustrativa
Tecnologia, inteligência artificial e limites da empatia
Na China, a audiência de podcasts supera 150 milhões de pessoas e cresce com a integração de apresentadores gerados por inteligência artificial. Para o professor Sun Shaojing, da Universidade Fudan, vozes sintéticas oferecem precisão e cobertura multilíngue, mas carecem das nuances emocionais que caracterizam o relato humano, sobretudo em coberturas de catástrofes e situações de sofrimento.
Frequências críticas para a exploração espacial
Além da superfície terrestre, o rádio sustenta comunicações de satélites, monitoramento ambiental e navegação. O chefe de Serviços Espaciais da União Internacional de Telecomunicações (UIT), Alexandre Vallet, alerta para o crescimento da procura por espectro à medida que Estados Unidos, China e outras potências planeiam bases permanentes na Lua. A denominada Zona Protegida da Lua, isenta de interferência desde a década de 1970, pode ser impactada. A UIT discutirá em 2027 um quadro regulatório que concilie as necessidades científicas e operacionais das missões lunares.
O elo que persiste
Das ruínas de estúdios em Gaza aos planos para habitats lunares, o rádio comprova versatilidade e resiliência. Em conflitos armados, catástrofes climáticas, iniciativas de inclusão ou projetos aeroespaciais, as ondas de rádio continuam a levar informação essencial a quem mais precisa.






