O muralista brasileiro Eduardo Kobra recebeu reconhecimento internacional ao ver a obra “Presente para o Futuro” transformada em selo comemorativo pelos 80 anos do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (Ecosoc). A homenagem, lançada neste mês em Nova Iorque, leva para a filatelia a mensagem central da peça: a responsabilidade coletiva de garantir um planeta habitável às próximas gerações.
Selo celebra mural exibido na Assembleia Geral
O trabalho eternizado no selo foi criado em 2022, quando um painel gigante de Kobra ficou exposto aos líderes mundiais que participaram da Assembleia Geral da ONU. Na composição, o artista articulou cores vibrantes para destacar temas recorrentes em sua trajetória, como tolerância, paz, igualdade e preservação ambiental. Segundo ele, a arte procura despertar “sentido, sentimento e consciência” num contexto global marcado por desafios sociais e climáticos.
Ao comentar a iniciativa, Kobra explicou que a criação do selo amplia o alcance do mural e o preserva de forma permanente, algo significativo para um artista cuja produção é majoritariamente ao ar livre e sujeita ao desgaste. “É um reconhecimento que permanece para sempre”, afirmou durante a cerimónia de lançamento.
Desafios de preservar murais ao redor do mundo
Desde 1987, Kobra já pintou centenas de fachadas em mais de 30 países. Contudo, o caráter efêmero desses suportes impõe perdas constantes: o artista calcula que mais de 90% das obras iniciais foram removidas ou apagadas por ação do clima, deterioração dos muros ou intervenções urbanas. Essa realidade faz com que ele divida o tempo entre criar novos projetos e restaurar peças antigas.
Para financiar parte desse trabalho, Kobra recorre a tecnologias digitais. Ele permite que colecionadores adquiram fragmentos virtuais de murais por meio de criptomoedas, mecanismo que converte contribuições online em recursos para intervenções físicas de conservação. O artista também mantém um inventário detalhado de materiais e técnicas, facilitando futuras restaurações por equipas especializadas.
Instituto social começa a funcionar em março
Além da preocupação com o legado estético, Kobra prepara a inauguração do Instituto Eduardo Kobra, prevista para março. A entidade terá como finalidade oferecer atividades artísticas a crianças e adolescentes, sobretudo em comunidades com acesso limitado a espaços culturais. O criador aspira expandir o modelo para diferentes regiões do Brasil e, no longo prazo, estabelecer núcleos em outros países. “Quero transformar sonhos em realidade e devolver oportunidades que eu mesmo não tive”, declarou.
Filho da periferia paulistana, Kobra construiu carreira internacional ao retratar figuras históricas e temas humanitários em superfícies públicas. A experiência de superar barreiras socioeconómicas reforça, segundo ele, a urgência de criar canais de formação para jovens talentos.
Imagem: ilustrativa
Projetos para 2024 incluem Nova Iorque e China
O cronograma do artista para este ano prevê um novo painel em Nova Iorque, cidade onde também planeja abrir um ateliê. Outros dois murais de grandes dimensões serão executados na China, enquanto convites já formalizados por pelo menos três países europeus aguardam definição de datas. Kobra reconhece que a agenda intensa exige adaptação constante, mas destaca a relevância de levar mensagens de impacto social a diferentes públicos.
Preocupação com uso indiscriminado de inteligência artificial
Observador atento das transformações tecnológicas, o muralista manifesta cautela em relação ao uso de inteligência artificial na criação de imagens. Para ele, a popularização de ferramentas que geram artes automaticamente tende a uniformizar estilos e reduzir a originalidade autoral. Kobra relata dificuldade crescente em distinguir obras feitas por humanos das produzidas por algoritmos, até mesmo ao avaliar detalhes de luz e sombra — um exercício que costumava executar com facilidade.
Apesar da crítica, o artista não descarta a tecnologia, mas defende equilíbrio entre inovação e autenticidade. Ao mesmo tempo em que adota recursos digitais para preservar e financiar projetos, mantém o hábito de realizar pesquisas históricas e iconográficas in loco, carregando cadernos de desenho e interagindo com as comunidades onde trabalha.
Com a chancela da ONU, a expansão do instituto e novos murais programados, Eduardo Kobra consolida presença global sem abrir mão do propósito social que pauta seus 37 anos de carreira. O selo do Ecosoc estabelece um marco concreto dessa trajetória e reforça a mensagem de que arte pública pode dialogar com políticas internacionais de desenvolvimento humano e sustentabilidade.





