Falta de chips impulsiona ações de fabricantes e aponta superciclo até 2027

Imagem representando tecnologia e inovação

Os principais produtores de chips de memória registaram ganhos sólidos na bolsa nesta segunda-feira, 5 de janeiro, reflexo direto de uma escassez global considerada “sem precedentes” pela Samsung. Investidores apostam que a combinação de oferta limitada e procura crescente por infraestruturas de inteligência artificial manterá os preços elevados e ampliará as margens do setor.

Demanda de IA redireciona capacidade industrial

Segundo o copresidente-executivo da Samsung, TM Roh, a corrida para construir servidores de inteligência artificial esgotou a disponibilidade de memória de alta largura de banda (HBM), peça essencial para processar grandes volumes de dados. Para atender a essa procura, fabricantes deslocam capacidade fabril para a produção de HBM, reduzindo a oferta de outros formatos, como chips flash utilizados em smartphones, unidades USB e dispositivos de consumo.

Esse reposicionamento foi apontado por vários executivos do setor como a principal razão para as atuais restrições de fornecimento. A análise da consultoria TrendForce mostra que, em determinados segmentos, os preços mais do que duplicaram desde fevereiro do ano passado, sinalizando um mercado em desequilíbrio persistente.

Ações reagem à perspectiva de oferta apertada

O reflexo imediato foi percebido no comportamento dos papéis das empresas listadas. Na abertura do pregão, a Micron Technology subiu cerca de 2%. Horas depois, SK Hynix e Samsung encerraram o dia com altas próximas de 3% e 7,5%, respetivamente. Entre os fabricantes de menor porte, Western Digital, Applied Digital e Seagate Technology registaram avanço superior a 3%, enquanto a SanDisk ganhou perto de 1,5%.

Os resultados ampliam uma tendência observada ao longo do ano passado. Ao fim de 2025, as ações da Micron acumulavam valorização de 240%, superando com folga o ganho aproximado de 42% do índice de referência para o setor de semicondutores. No mesmo período, os títulos da Samsung mais do que dobraram, e a SK Hynix quase quadruplicou o seu valor de mercado.

Expectativa de superciclo prolongado

Analistas da Morningstar e do J.P. Morgan descrevem o movimento atual como um “superciclo” de memória. De acordo com as duas casas de análise, o ciclo pode estender-se até 2027, sustentado sobretudo pela procura por infraestrutura de IA em nuvem, centros de dados corporativos e aplicações de computação de ponta.

Em declaração recente, o diretor-executivo da Micron, Sanjay Mehrotra, disse esperar um mercado “apertado” durante todo o ano corrente, o que reforça a expectativa de preços firmes e margens elevadas. Para os analistas, a combinação de restrição de capacidade em produtos tradicionais e redirecionamento para HBM criará um ambiente de lucro acima da média para os fornecedores que dominam a produção de memória avançada.

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Impactos em segmentos adjacentes

Ao priorizar a fabricação de módulos de alta largura de banda, as empresas deixam outras cadeias de suprimento com menos oferta disponível. Segmentos como dispositivos móveis, eletrónica de consumo e armazenamento externo enfrentam custos mais elevados e potenciais atrasos. Especialistas preveem que a transferência de capacidades fabris só começará a ser revertida quando novos investimentos em fábricas especializadas entrarem em operação, processo que pode demorar vários trimestres.

Além da pressão sobre preços ao consumidor, o desequilíbrio afeta fabricantes de equipamentos de produção, que veem maior procura por máquinas de litografia avançada e por sistemas de embalagem de chip de alta densidade. O resultado é uma cadeia inteira movida por encomendas relacionadas à IA, reforçando o caráter sistémico da escassez.

Cenário de médio prazo

Com a maioria dos contratos de fornecimento de memória indexados a preços de mercado, os produtores de chips tendem a manter margens robustas enquanto a procura por serviços de IA permanecer em trajetória ascendente. A capacidade adicional anunciada para 2026 e 2027, embora relevante, pode não ser suficiente para equilibrar a oferta, segundo estimativas preliminares de consultorias de mercado.

Nesse contexto, investidores continuam a reforçar posições em papéis do setor, antecipando múltiplos de lucro superiores aos vistos nos últimos ciclos de expansão. Embora o ritmo de valorização varie entre as diferentes empresas, o mercado projeta ganhos sustentados, apoiados na adoção acelerada de modelos de linguagem de grande escala, sistemas de recomendação e processamento de dados em tempo real.

Até que o aumento de capacidade fabril seja materializado, os indicadores apontam para um ambiente favorável às fabricantes de memória. A continuidade do “superciclo” dependerá da manutenção do impulso na IA e da velocidade com que as empresas conseguirão expandir a produção sem desestabilizar o equilíbrio atual entre oferta e procura.

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