Especialistas indicam medidas para frear ‘adultização’ de crianças no ambiente escolar

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O debate sobre a “adultização” de crianças e adolescentes ganhou força depois da publicação de um vídeo do influenciador Felca. A expressão descreve a exposição precoce de menores a situações típicas da vida adulta, como sexualização, pressão por desempenho e responsabilidades emocionais que excedem a faixa etária. Especialistas em psicologia e educação apontam que a escola, espaço onde os estudantes passam grande parte do dia, precisa atuar em parceria com famílias para prevenir esse fenómeno.

O que está por trás do conceito de “adultização”

Para Michel Fillus, doutor em psicologia clínica e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o termo sintetiza problemas já descritos em pesquisas, entre eles exploração, erotização precoce, assédio e negligência. Ele observa que comportamentos como uso de maquilhagem, brincadeiras com conotação sexual ou acesso irrestrito a conteúdos online indicam que a infância está a ser abreviada.

Segundo a psicóloga Adriana Schiavone, a adultização também se manifesta quando a criança assume papéis de responsabilidade emocional ou enfrenta cobrança académica excessiva. “A antecipação de metas e avaliações que deveriam surgir anos mais tarde resulta em stress e perda de referências próprias da infância”, afirma.

Ambiente escolar e riscos digitais

Embora muitas escolas proíbam o uso de telemóveis em sala, a circulação de conteúdos digitais continua a ocorrer por meio de comentários de colegas ou acessos fora do horário letivo. Fillus alerta que a permissividade online aumenta a probabilidade de cyberbullying, reprodução de desafios perigosos e contacto com pornografia infantil. Para o especialista, é essencial reforçar a norma que limita dispositivos e manter vigilância sobre interações entre estudantes.

Raquel Guzzo, professora na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), lembra que diferentes formas de violência podem surgir de modo velado, especialmente quando não há agressão física. Isolamento, mudanças bruscas de humor e dificuldade de socialização são sinais de que algo pode estar a ocorrer. “A presença de profissionais de psicologia dentro da escola facilita a escuta qualificada e a intervenção precoce”, diz.

Responsabilidade partilhada entre família e escola

Luiza Sassi, pedagoga e diretora do Instituto Gaylussac, defende que o primeiro passo é revalorizar a autoridade parental, distinguindo liderança de autoritarismo. Ela recomenda que pais estabeleçam limites claros, conversem sobre conteúdos sensíveis e evitem expor os filhos nas redes sociais. “Os menores não têm maturidade para discernir entre informação benéfica e nociva”, sublinha.

No ambiente doméstico, aplicativos de controlo parental ajudam a monitorizar o que é consumido online, mas o diálogo continua indispensável. Crianças podem ter acesso a vídeos e desafios compartilhados por colegas, o que torna necessária uma supervisão contínua, conforme explica Sassi.

Nas escolas, campanhas de conscientização sobre segurança digital e sexualidade devem envolver todas as disciplinas, sugerem os especialistas. Fillus propõe que cada matéria inclua debates adequados à idade, reforçando noções de consentimento, respeito e proteção. A autora Joanna Smith, no livro “Como Proteger Seu Filho da Violência Sexual”, aponta que instituições de ensino têm a obrigação de adotar políticas preventivas e planos de ação claros em casos de incidente.

Práticas recomendadas para reduzir a adultização

Reforço de regras sobre dispositivos eletrónicos: manter a proibição ou limitação do telemóvel nos espaços escolares e fiscalizar o cumprimento da norma.

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Imagem: Internet

Educação sexual apropriada à idade: abordar temas como consentimento, respeito ao corpo e limites de convivência desde os primeiros anos.

Apoio psicopedagógico: ter psicólogos e equipas multiprofissionais para acolher denúncias, observar comportamentos e orientar professores.

Participação familiar ativa: promover encontros regulares entre responsáveis e docentes para alinhar estratégias de proteção, trocar informações e acompanhar o desenvolvimento dos estudantes.

Supervisão de conteúdos online: utilizar ferramentas de bloqueio e monitorização, mas também incentivar conversas transparentes sobre riscos e boas práticas na internet.

Sinais de alerta e ação imediata

Profissionais recomendam atenção a mudanças comportamentais súbitas, como retraimento, queda no rendimento académico ou agressividade incomum. Quando esses indícios aparecem, família e escola devem agir conjuntamente para investigar causas, oferecer apoio psicológico e, se necessário, acionar redes de proteção.

Guzzo ressalta que a presença constante de adultos responsáveis e o diálogo aberto reduzem a naturalização da violência. “Sem essa supervisão, a criança fica vulnerável a influências que não compreende”, afirma.

Diante do cenário de exposição crescente aos meios digitais e à cultura de consumo, as principais estratégias apontadas por especialistas convergem na defesa do brincar, do convívio presencial e do estabelecimento de limites claros. A cooperação entre pais, professores e profissionais de saúde emerge como a ferramenta mais eficaz para preservar a infância e conter o fenómeno da adultização nas escolas brasileiras.

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