O número de pessoas que vivem nas ruas do Brasil voltou a crescer e ultrapassou a marca de 365 mil. Dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/Polos-UFMG), mostram que o total passou de 327.925 em dezembro de 2024 para 365.822 no fim do ano passado, o que representa expansão de cerca de 12% no intervalo de doze meses.
Sudeste concentra seis em cada dez pessoas nessa condição
O levantamento, divulgado nesta quarta-feira (13), foi elaborado a partir de informações do Cadastro Único de Programas Sociais (CadÚnico), principal base federal para identificação de grupos em vulnerabilidade. A pesquisa aponta que 61% das pessoas em situação de rua estão na Região Sudeste: são 222.311 registros. Em seguida aparece o Nordeste, com 54.801.
Na análise por estado, São Paulo responde sozinho por 150.958 pessoas, quase 41% do total nacional. Rio de Janeiro (33.656) e Minas Gerais (33.139) vêm na sequência. O Amapá apresenta o menor contingente, com 292 indivíduos cadastrados nessa condição.
Tendência de retomada após queda inicial na pandemia
Entre 2020 e 2021, primeiro ano da pandemia de covid-19, o número de pessoas vivendo nas ruas recuou de 194.824 para 158.191. A partir de 2022, porém, o índice voltou a subir e vem se ampliando de forma contínua desde então, segundo o OBPopRua.
Fatores que impulsionam o aumento
Os pesquisadores elencam quatro fatores principais para explicar o avanço recente:
1. Maior utilização do CadÚnico como registro oficial dessa população;
2. Falta ou insuficiência de políticas públicas estruturantes em áreas como moradia, trabalho e educação;
3. Precarização das condições de vida após a pandemia;
4. Emergências climáticas e deslocamentos forçados na América Latina.
Relato do movimento de pessoas em situação de rua
Robson César Correia de Mendonça, representante do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, avalia que o avanço tecnológico e o alto custo de vida agravam o cenário. “Ainda existe muita fome no Brasil. Há quem precise escolher entre pagar aluguel ou comprar remédio”, afirmou. Segundo ele, a dificuldade para custear tratamentos médicos empurra parte dessa população para as ruas.
Imagem: Internet
Mendonça defende políticas de capacitação profissional, combate ao preconceito e incentivos à contratação de pessoas nessa condição. “Quando houver conscientização de que estamos diante de cidadãos desempregados, e não de ‘guetos’, será possível promover a reinserção no mercado de trabalho”, observou.
Medidas em curso no estado de São Paulo
A Secretaria de Desenvolvimento Social paulista informou ter destinado R$ 633 milhões a prefeituras desde o início desta gestão, sendo R$ 145,6 milhões exclusivos para ações voltadas à população em situação de rua. Entre as iniciativas citadas estão:
• Criação de 24 novas unidades do Bom Prato, programa que oferece refeições a baixo custo;
• Ampliação do Serviço de Acolhimento Terapêutico Residencial, voltado à autonomia de pessoas afetadas pelo uso de substâncias psicoativas.
Posicionamento federal aguarda resposta
Até o momento, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania não se manifestou sobre o levantamento. O OBPopRua destaca que o monitoramento contínuo do CadÚnico permite dimensionar a demanda real e orientar políticas públicas, mas reforça que soluções duradouras exigem ações articuladas em moradia, renda e acesso a serviços essenciais.
Com a atualização mais recente, o Brasil passa a ter, em média, 1,7 pessoa em situação de rua a cada mil habitantes, segundo cálculo baseado na população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O índice tende a pressionar municípios e estados por respostas mais estruturadas, sobretudo nas regiões onde a concentração é elevada.





