Washington anunciou a retirada dos Estados Unidos de 66 organizações internacionais, incluindo a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e o Fundo Verde para o Clima (GCF). A decisão, divulgada na quarta-feira (7), motivou alertas de autoridades e especialistas sobre impactos económicos, sociais e ambientais tanto fora quanto dentro do território norte-americano.
Decisão abrange 66 organismos multilaterais
O pacote de saídas foi apresentado pelo governo Donald Trump como parte de uma estratégia de reavaliação de compromissos externos. Entre os organismos abandonados estão a UNFCCC, responsável pela negociação anual das Conferências das Partes (COPs) – a última, a COP30, ocorreu em novembro passado, em Belém. Também deixam de contar com participação norte-americana o IPCC, que reúne a comunidade científica para avaliar o aquecimento global, e o GCF, principal mecanismo multilateral de financiamento climático.
Segundo comunicado do secretário do Tesouro, Scott Bessent, o GCF foi classificado como “organização radical” cujos objetivos contrariam a busca por “energia acessível e confiável”. Bessent afirmou que a continuidade no fundo seria incompatível com as prioridades económicas da Casa Branca, centradas em combustíveis fósseis.
ONU alerta para efeitos económicos internos
Para o secretário-executivo da UNFCCC, Simon Stiell, a decisão representa um “gol contra colossal”. Ele recordou que os próprios Estados Unidos foram peça chave na criação da convenção e no Acordo de Paris, acordos considerados de interesse nacional por preverem cooperação para reduzir riscos climáticos.
Stiell enumerou potenciais consequências imediatas ao consumidor norte-americano. “À medida que as renováveis ficam mais baratas, a energia obtida de fontes fósseis tende a encarecer. Isso pressiona os preços de eletricidade, transporte, seguros e alimentos”, disse. O dirigente acrescentou que a maior frequência de incêndios florestais, enchentes, tempestades e secas deve elevar custos de reparação de infraestruturas e prejudicar colheitas.
Além do impacto interno, Stiell avaliou que a ausência dos Estados Unidos pode reduzir o ritmo de inovação tecnológica e de geração de emprego em setores de baixo carbono. “Enquanto o resto do mundo avança em conjunto, esse retrocesso enfraquece competitividade, segurança e prosperidade norte-americanas”, afirmou.
Organizações da sociedade civil pedem reação rápida
No Brasil, o Instituto Talanoa classificou a medida como “novo capítulo de choque político em plena crise climática”. Para Natalie Unterstell, presidente da entidade, a credibilidade norte-americana sofre, mas a governança climática não depende exclusivamente de um ator. “Se outras nações assumirem a responsabilidade de liderar, o sistema pode atravessar este período sem colapso. O desafio está na rapidez da resposta coletiva”, declarou.
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A ONG adverte que o financiamento internacional para projetos de mitigação e adaptação pode sofrer queda imediata, sobretudo em países em desenvolvimento que dependem do GCF. Sob a atual configuração, os Estados Unidos eram um dos principais doadores do fundo, criado para apoiar transições energéticas e proteger comunidades vulneráveis.
Contexto e próximos passos
A saída norte-americana ocorre num momento em que estudos do próprio IPCC indicam intensificação de eventos climáticos extremos. Sem a participação dos Estados Unidos, negociadores terão de recalibrar metas de financiamento e de redução de emissões previstas para a próxima COP, agendada para o fim do ano, em local ainda a ser confirmado.
Até ao momento, não foi apresentado cronograma para eventual retorno norte-americano aos órgãos multilaterais. Analistas observam que, juridicamente, a retirada do IPCC e do GCF não impede o país de enviar relatórios nacionais de emissões, mas inviabiliza voto, acesso a fundos e participação em grupos de trabalho oficiais.
Nos Estados Unidos, governos estaduais e empresas que aderiram a compromissos de neutralidade carbónica estudam alternativas para manter projetos financiados pelo GCF. Alguns avaliam criar consórcios regionais ou captar recursos junto a bancos de desenvolvimento e investidores privados.
Enquanto isso, a comunidade internacional aguarda sinais de novos financiadores para cobrir o vazio deixado pela decisão norte-americana. A expectativa é que União Europeia, Canadá, Japão e economias emergentes com capacidade fiscal avaliem aumentos de contribuição antes da próxima ronda de negociações climáticas.





