EUA instalam rastreadores em remessas de chips para impedir desvios à China

Tecnologia e Inovação

Autoridades dos Estados Unidos colocaram dispositivos de localização em remessas específicas de chips de inteligência artificial considerados de alto risco de desvio para a China, revelaram duas fontes com conhecimento direto da operação. A tática, até agora não divulgada, integra a aplicação dos controles de exportação que proíbem a venda de semicondutores avançados a destinos sob sanções norte-americanas.

Objetivo e alcance da medida

Segundo as fontes, os rastreadores são acrescentados apenas a lotes sob investigação, com o propósito de identificar caminhos de contrabando e reunir provas contra indivíduos ou empresas que lucram violando as restrições. A iniciativa demonstra a amplitude dos esforços de fiscalização iniciados em 2022, quando Washington limitou a exportação de chips de alto desempenho produzidos por fabricantes como Nvidia e AMD para o mercado chinês.

Dispositivos de localização já eram usados há décadas pelos órgãos de segurança dos EUA para monitorar peças de aeronaves e outros itens sujeitos a controle comercial. A adoção dessa tecnologia no setor de semicondutores, porém, é recente e reflete a importância estratégica dos chips de IA na disputa tecnológica entre Washington e Pequim.

Como os rastreadores são instalados

Outras cinco pessoas ligadas à cadeia de suprimentos de servidores confirmaram ter conhecimento da presença dos rastreadores em encomendas de fabricantes de infraestrutura, como Dell e Super Micro, que utilizam processadores da Nvidia e da AMD. Os dispositivos costumam ficar escondidos na embalagem externa, mas podem ser posicionados em camadas internas e até dentro do próprio servidor.

Em um episódio relatado pelas fontes e ocorrido em 2024, uma remessa de servidores Dell foi enviada com rastreadores visíveis – do tamanho aproximado de um smartphone – inseridos nas caixas de transporte, além de unidades menores dissimuladas entre componentes internos. Há registro de revendedores removendo esses elementos após a chegada do produto ao destino final.

A Reuters não conseguiu apurar com que frequência os rastreadores são empregados nem quando o governo norte-americano começou a utilizá-los para vigiar o fluxo de chips. Ainda assim, a descrição do processo indica que os dispositivos podem ser instalados em qualquer ponto da rota logística, desde o fabricante até o distribuidor, dificultando a detecção por intermediários.

Agências envolvidas e respostas das empresas

O Bureau of Industry and Security (BIS), órgão do Departamento de Comércio responsável pela fiscalização dos controles de exportação, supervisiona as operações. Dependendo do caso, o Homeland Security Investigations (HSI) e o FBI também participam das investigações. Procurados pela reportagem, HSI e FBI optaram por não comentar, e o Departamento de Comércio não respondeu.

EUA instalam rastreadores em remessas de chips para impedir desvios à China - Imagem do artigo original

Imagem: uol.com.br

Entre as empresas citadas, a Super Micro declarou que não divulga políticas internas de segurança e preferiu não se manifestar sobre ações de rastreamento do governo. A Dell afirmou não ter conhecimento de qualquer iniciativa semelhante envolvendo os seus produtos. A Nvidia ressaltou que “não instala dispositivos secretos de rastreamento” em suas unidades, enquanto a AMD não respondeu aos pedidos de comentário.

O Ministério das Relações Exteriores da China informou não estar ciente do tema. A declaração ocorre em meio ao debate interno nos Estados Unidos sobre eventuais ajustes nas restrições, discussão que se intensificou durante o mandato do ex-presidente Donald Trump e prossegue na atual administração.

Importância dos chips de IA na disputa tecnológica

Os chips de inteligência artificial representam um dos componentes mais avançados da indústria de semicondutores, essenciais para aplicações em centros de dados, computação de alto desempenho e desenvolvimento de modelos de IA. Por esse motivo, Washington considera o controle de exportação estratégico para limitar o avanço tecnológico de concorrentes geopolíticos.

Ao monitorar o destino real dos processadores, o governo pretende impedir que fornecedores usem redes paralelas de distribuição para atender clientes sujeitos a sanções. Caso os rastreadores indiquem desvio, as informações podem servir de base para processos criminais e sanções adicionais, reforçando o cumprimento das regras de exportação.

Até o momento, permanece incerto quantas remessas foram rastreadas e quantos casos resultaram em processos judiciais. Mesmo assim, a iniciativa evidencia a crescente utilização de tecnologias de monitorização para conter fluxos considerados sensíveis e fortalecer o regime de controle de semicondutores imposto pelos Estados Unidos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *