As Forças Armadas da Venezuela reconheceram oficialmente a vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina do país, um dia depois de tropas norte-americanas capturarem Nicolás Maduro em Caracas. O posicionamento militar foi anunciado no domingo (4) pelo ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López, numa declaração em vídeo transmitida pela televisão estatal.
Reconhecimento militar e rejeição à intervenção
No comunicado, Padrino López afirmou que a captura de Maduro constitui “uma ameaça global” e repudiou a presença de forças estrangeiras no território venezuelano. O general exigiu a libertação imediata do chefe de Estado detido e classificou a ofensiva como tentativa “colonialista” inspirada na doutrina Monroe, política histórica de influência norte-americana sobre a América Latina.
O ministro apelou ainda para que a população “retome suas atividades ao longo dos próximos dias”, numa tentativa de conter o clima de tensão que tomou conta de Caracas desde a madrugada de sábado (3). Explosões foram registradas em vários bairros da capital durante a operação das forças de elite dos Estados Unidos, que resultou na detenção de Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores. Ambos foram transferidos para Nova Iorque, onde deverão responder a acusações criminais formuladas pela justiça norte-americana.
Base legal para a sucessão
A decisão das Forças Armadas segue determinação do Supremo Tribunal de Justiça (TSJ), que havia indicado Delcy Rodríguez para assumir o comando interino do Executivo assim que se confirmasse a ausência do presidente. O tribunal fundamentou a medida no artigo da Constituição que prevê substituição temporária do chefe de Estado em caso de impedimento absoluto ou força maior.
Rodríguez, de 57 anos, exerce a vice-presidência desde 2018 e já comandou a diplomacia venezuelana. Até o momento, ela não se manifestou publicamente sobre os rumos do governo nem sobre eventuais negociações com Washington para libertar Maduro. Fontes oficiais limitaram-se a informar que a nova mandatária interina “está reunida com ministros civis e chefes militares para avaliar os próximos passos”.
Contexto da operação norte-americana
A ofensiva dos Estados Unidos marca o primeiro episódio de intervenção militar direta do país numa nação latino-americana desde a invasão do Panamá, em 1989, quando o então presidente Manuel Noriega foi detido sob acusação de narcotráfico. Na Venezuela, Washington alega que Maduro lidera um suposto cartel conhecido como De Los Soles. Especialistas em tráfico internacional contestam a existência dessa organização, e a Casa Branca ainda não apresentou provas públicas que sustentem a acusação.
O governo norte-americano mantinha, desde 2020, uma recompensa de 50 milhões de dólares por informações que levassem à prisão do presidente venezuelano. Para analistas citados por diferentes veículos internacionais, a ação militar também pode estar relacionada ao objetivo de afastar Caracas de parceiros estratégicos como China e Rússia, além de reforçar o acesso dos Estados Unidos às maiores reservas de petróleo comprovadas do planeta.
Imagem: Últimas Notícias
Repercussão interna e regional
Dentro da Venezuela, a captura de Maduro desencadeou protestos e manifestações pró-governo em várias cidades. Organizações sociais e movimentos de trabalhadores convocaram atos para exigir a devolução do presidente e denunciar o que classificam como “violação da soberania nacional”. Ao mesmo tempo, setores da oposição veem na operação uma oportunidade para acelerar a transição política, embora ainda não tenham apresentado consenso sobre como conduzir esse processo sob a liderança de Rodríguez.
Governos da América Latina e do Caribe convocaram reuniões de emergência para discutir a situação. Até agora, blocos regionais como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) não alcançaram posição unificada sobre a intervenção norte-americana. Alguns países defendem condenação explícita ao uso da força, enquanto outros insistem na necessidade de “garantir estabilidade” e aguardam detalhes sobre as acusações contra Maduro.
Próximos passos
Tropas venezuelanas permanecem em alerta máximo, especialmente nas fronteiras e nos arredores de instalações estratégicas, como refinarias e bases aéreas. O Ministério da Defesa não divulgou informações sobre movimentação de unidades norte-americanas após a operação inicial, mas reiterou que “qualquer nova incursão será tratada como ato de agressão”.
No plano político, a posse formal de Delcy Rodríguez deverá ser ratificada pela Assembleia Nacional contralada pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) ao longo desta semana. Paralelamente, advogados de Maduro devem pedir habeas corpus nos tribunais de Nova Iorque, argumentando que o presidente possui imunidade soberana reconhecida pelo direito internacional.
Enquanto isso, a tensão entre Caracas e Washington reacende o debate histórico sobre intervenções externas na região e coloca a Venezuela no centro de uma crise diplomática que pode redefinir o equilíbrio geopolítico latino-americano nas próximas semanas.





