Uma equipa internacional conseguiu reproduzir, em laboratório, a formação de cadeias curtas de aminoácidos em condições semelhantes às que se verificam nas nuvens de poeira interestelar. O resultado indica que peptídeos, precursores diretos das proteínas, podem surgir sem necessidade de ambientes especiais, reforçando a hipótese de que os tijolos da vida se formam antes mesmo do aparecimento de planetas.
Ambiente interestelar recriado em laboratório
O experimento foi conduzido por Alfred Hopkinson, da Universidade Aarhus, na Dinamarca, em colaboração com o Instituto de Pesquisa Nuclear da Academia Húngara de Ciências. Dentro de uma câmara de vácuo ultra-alto, os investigadores simularam a baixa pressão e a temperatura de -260 °C, características de vastas nuvens de poeira que se estendem pelo Universo.
Para manter essas condições, o sistema executou bombeamento contínuo, removendo praticamente todas as moléculas de gás. Na superfície de pequenos grãos de poeira sintéticos, os cientistas depositaram glicina, o aminoácido mais simples conhecido. Em seguida, expuseram o material a radiação que imita o efeito dos raios cósmicos em espaço aberto.
De acordo com Hopkinson, o objetivo era verificar se moléculas mais complexas se organizam naturalmente antes da formação de estrelas e planetas. “Experiências anteriores já mostravam a síntese de aminoácidos isolados em ambiente interestelar. Queríamos saber se esses compostos avançam um passo além, criando ligações entre si”, resumiu o investigador.
Peptídeos e água surgem sem ajuda externa
Ao analisar os resíduos deixados na câmara, a equipa identificou ligações de peptídeos formadas pela união espontânea de moléculas de glicina. O processo também gerou água como subproduto. Segundo Sergio Ioppolo, co-autor do trabalho, o resultado confirma que reações químicas essenciais à vida podem ocorrer diretamente na poeira cósmica.
Peptídeos consistem em cadeias curtas de aminoácidos; várias dessas cadeias podem ligar-se e originar proteínas, fundamentais para todas as formas de vida conhecidas. A descoberta sugere que parte desse percurso químico já acontece no espaço, antes de qualquer matéria se consolidar em corpos planetários.
Reavaliação da cronologia química do Universo
Até agora, prevalecia a ideia de que apenas moléculas simples se formavam em nuvens interestelares, enquanto compostos mais complexos surgiriam depois, em discos protoplanetários aquecidos. “Mostrámos que esse não é o caso”, afirmou Ioppolo. A obtenção de peptídeos sob frio extremo indica que a química pré-biótica começa muito cedo no ciclo de formação estelar.
Quando essas nuvens colapsam, o material incorporado nos grãos de poeira integra novos sistemas solares. Se os fragmentos aterram em planetas rochosos situados em zonas habitáveis, fornecem parte do repertório molecular necessário para o aparecimento de organismos. O estudo, publicado a 22 de janeiro de 2026, amplia assim o leque de cenários plausíveis para a origem da vida.
Imagem: Tecnologia e Inovação
Impacto na busca por vida extraterrestre
A produção espontânea de peptídeos em ambiente interestelar aumenta a probabilidade estatística de existirem formas de vida noutros pontos da galáxia. Ao confirmar que compostos complexos emergem sem intervenção especial, a pesquisa oferece uma explicação adicional para a abundância de componentes orgânicos observados em meteoritos e cometas.
Hopkinson sublinha, no entanto, que o trabalho não resolve a questão de como as primeiras células se organizaram. “Ainda falta entender a transição de moléculas para sistemas vivos. O que mostramos é que blocos essenciais estão disponíveis desde os momentos iniciais de formação planetária”, pontuou.
Próximos passos da investigação
A equipa pretende replicar o experimento com outros aminoácidos, como alanina e serina, para verificar se também se unem em condições de vácuo e frio extremos. Além disso, planeia analisar o papel de diferentes níveis de radiação e a influência de partículas de gelo que coexistem com poeira interestelar.
Os investigadores consideram ainda testar superfícies minerais variadas, simulando composições de meteoritos, de modo a avaliar se certos substratos aceleram a formação de ligações peptídicas. Esses dados poderão refinar modelos de astroquímica e orientar missões que procuram sinais de vida em luas geladas ou em exoplanetas.
A descoberta representa, em suma, um avanço na compreensão de como a química orgânica evolui no espaço. Ao demonstrar que peptídeos surgem em condições de frio quase absoluto e pressão mínima, o estudo reforça a hipótese de que o Universo fornece, por si só, os ingredientes necessários para o desenvolvimento da vida.





