Desde o fim de 2023, todas as 40 escolas da Fundação Bradesco passaram a adotar regras mais rígidas para o uso de celulares pelos alunos. A iniciativa antecede a Lei 15.100/25, sancionada este ano, que orienta os sistemas de ensino a regulamentar a presença de dispositivos móveis em ambiente escolar.
Como funciona a restrição
A medida não impede que o estudante leve o aparelho para a unidade, mas restringe o uso durante o período letivo. Ao entrar em sala, o aluno deposita o celular numa caixa fechada, permanecendo sem acesso ao dispositivo até o fim das atividades. O mesmo procedimento se estende aos intervalos, nos quais o uso de telas também foi vetado.
Segundo a instituição, o objetivo é tornar o espaço mais humano, seguro e focado na aprendizagem, além de estimular o desenvolvimento de competências socioemocionais. “Toda tecnologia é bem-vinda quando há intencionalidade pedagógica”, afirma Katia Chedid, gerente de Governança Educacional e especialista em Neurociência da Fundação.
Impacto percebido em sala e nos intervalos
Professores relatam maior concentração dos estudantes durante as aulas. Com menos distrações, houve melhora na participação e no rendimento das atividades, de acordo com relatos enviados pela rede interna da fundação.
Nos períodos de recreio, a transformação também foi notada. Antes dominado pelo uso individual de celulares, o intervalo passou a abrigar brincadeiras coletivas, jogos improvisados e conversas presenciais. Sonia Costa, diretora da escola Jardim Conceição, em Osasco (SP), diz que esperava resistência, mas viu o contrário. “Alguns alunos comentaram que o intervalo parece mais longo e disseram que aprenderam a olhar nos olhos dos colegas”, relata.
Familiares igualmente percebem mudanças. Pais de estudantes relataram redução de sintomas de ansiedade e maior interação em casa, segundo questionários aplicados pela direção escolar poucas semanas após a implantação da regra.
Motivações por trás da decisão
Fundada em 1956, a Fundação Bradesco atende gratuitamente mais de 42 mil crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social. O conselho gestor avaliou que a proibição ajudaria a reforçar a missão de formar alunos de modo integral, contemplando habilidades acadêmicas e sociais.
O foco não é afastar a tecnologia. Laboratórios de informática, plataformas de aprendizagem on-line e recursos digitais continuam integrados ao currículo, mas o acesso é planejado e mediado pelo professor. “A palavra-chave é intencionalidade: quando o aparelho se torna ferramenta pedagógica, e não distração”, explica Katia Chedid.

Imagem: g1.globo.com
Alinhamento com legislação recente
A Lei 15.100/25, promulgada após a adoção da medida pela Fundação, estabelece diretrizes para que escolas públicas e privadas delimitem o uso de dispositivos eletrónicos. Embora cada rede tenha autonomia para elaborar normas específicas, a fundação decidiu antecipar-se, implementando regras válidas para todos os estados brasileiros e o Distrito Federal.
Internamente, a elaboração do protocolo levou em conta estudos sobre saúde mental, aprendizagem e convivência escolar, além de consultas a docentes, pais e especialistas em educação. O processo resulta em uma diretriz única, mas flexível o suficiente para contemplar adaptações locais, segundo o departamento pedagógico.
Formação de professores e próximos passos
Para sustentar a mudança, a Fundação Bradesco investe na capacitação de seu corpo docente. Cursos focados em gestão de sala de aula, neurociência aplicada e métodos ativos de aprendizagem foram ampliados desde o início de 2024. A ideia é fornecer estratégias que mantenham o engajamento dos estudantes sem recorrer ao dispositivo móvel.
A direção estuda agora indicadores para mensurar efeitos de longo prazo, como desempenho em avaliações internas e índices de convivência. Os resultados preliminares serão compartilhados nas próximas reuniões do conselho gestor, previsto para o segundo semestre.
A instituição reforça que a iniciativa permanece em avaliação contínua. Caso seja observado impacto negativo ou surjam novas evidências científicas, o protocolo poderá ser ajustado. Por enquanto, gestores e professores relatam benefícios no comportamento, na atenção e na socialização dos alunos.