Galípolo assina manifesto que une bancos centrais em defesa de autonomia

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O presidente do Banco Central do Brasil (BCB), Gabriel Galípolo, aderiu nesta terça-feira, 13 de janeiro de 2026, a um manifesto internacional que reafirma a independência das autoridades monetárias e expressa apoio ao presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell. O documento foi elaborado após sucessivas pressões públicas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por cortes mais rápidos nas taxas de juros norte-americanas.

Objetivo do documento e posicionamento dos signatários

De acordo com o Banco Central, o texto destaca a autonomia técnica e institucional dos bancos centrais como condição essencial para a estabilidade de preços e para o bem-estar das populações. Os signatários sustentam que decisões de política monetária devem respeitar o Estado de Direito, a transparência e a responsabilidade democrática, sem interferências político-partidárias.

“Estamos em total solidariedade com o Sistema do Federal Reserve e seu presidente, Jerome H. Powell”, afirma o manifesto. O material também elogia a atuação de Powell, descrita como pautada pela integridade e pelo compromisso com o interesse público.

Além do Brasil, assinam o documento o Banco Central Europeu, o Banco da Inglaterra, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) — sediado na Suíça — e as autoridades monetárias do Canadá, Suécia, Dinamarca, Suíça, Austrália e Coreia do Sul. A presença de instituições de diferentes continentes visa evidenciar consenso global sobre a importância da autonomia monetária.

Contexto de tensões políticas nos Estados Unidos

O apoio internacional surgiu poucos dias depois de Powell informar que o Departamento de Justiça dos EUA enviou intimações de um grande júri relacionadas à reforma de prédios históricos do Fed em Washington. Segundo o presidente do banco central norte-americano, a investigação tem sido usada como instrumento de pressão política.

“Tenho profundo respeito pelo Estado de Direito e pela responsabilização em nossa democracia. Ninguém está acima da lei”, declarou Powell. “Mas essa ação sem precedentes deve ser vista no contexto mais amplo das ameaças e da pressão contínua do governo.” O mandato de Powell termina em maio deste ano.

Trump, por sua vez, critica publicamente o Fed por manter as taxas de juros em patamares considerados elevados e defende cortes mais acelerados, apesar de a inflação dos EUA ter encerrado 2025 acima da meta oficial.

Reflexos no cenário brasileiro

A divulgação do manifesto ocorre em momento sensível para o Banco Central do Brasil. A recente liquidação do Banco Master e questionamentos no Tribunal de Contas da União (TCU) reacenderam o debate sobre a autonomia da autoridade monetária no país. Na segunda-feira, 12 de janeiro, Galípolo reuniu-se com o presidente do TCU, ministro Vital do Rêgo, para tratar do tema.

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Analistas do mercado financeiro avaliam que a adesão de Galípolo ao documento internacional busca reforçar a confiança na condução técnica da política monetária brasileira, num ambiente global marcado por maior volatilidade e incerteza. A indicação de alinhamento com bancos centrais de peso, como o BCE e o Banco da Inglaterra, é vista como sinal de compromisso com práticas reconhecidas internacionalmente.

Principais pontos do manifesto

• Reconhecimento da independência das autoridades monetárias como pilar da estabilidade econômica global.
• Defesa explícita de decisões baseadas em análise técnica, afastadas de pressões político-eleitorais.
• Solidariedade institucional ao Federal Reserve e a Jerome Powell, diante de investidas que buscam acelerar cortes de juros.
• Compromisso com transparência, responsabilidade democrática e respeito ao Estado de Direito.
• Alerta sobre riscos de interferência que possam comprometer metas de controle da inflação e confiança dos agentes económicos.

Próximos passos

O manifesto não estabelece medidas concretas, mas cria um posicionamento público comum entre as principais autoridades monetárias mundiais. A expectativa é que o texto seja encaminhado a organismos internacionais e a governos que mantêm diálogo com os bancos centrais signatários.

No Brasil, o documento pode influenciar as discussões no Congresso Nacional e no TCU sobre o alcance da Lei Complementar que concedeu autonomia operacional ao Banco Central em 2021. Já nos Estados Unidos, observadores políticos aguardam a reação de Trump e de parlamentares ao apoio global recebido por Powell.

Ao associar-se ao movimento, o Banco Central do Brasil reforça a mensagem de que metas de inflação e decisões sobre a taxa Selic continuarão a seguir critérios técnicos, independentemente de pressões conjunturais. Para investidores, a sinalização pode reduzir incertezas quanto ao rumo da política monetária doméstica em 2026.

O documento segue aberto a novas adesões e poderá ser atualizado caso outros bancos centrais decidam subscrevê-lo. Até o momento, não há previsão de encontros presenciais entre os signatários, mas a coordenação deverá ocorrer por meio do Banco de Compensações Internacionais.

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