Dois recém-nascidos siameses morreram no Hospital Estadual da Mulher (Hemu), em Goiânia, após uma cirurgia de separação realizada em caráter de urgência. A intervenção foi conduzida na madrugada de quarta-feira (7) pelo cirurgião pediátrico e deputado federal Zacharias Calil, logo depois de um dos bebés apresentar sucessivas paradas cardiorrespiratórias. A morte do segundo gémeo, confirmada na madrugada de quinta-feira (8), encerrou a tentativa da equipa médica de preservar pelo menos uma das vidas.
Condição rara e primeiros cuidados
Identificados como Marcos e Matheus, os irmãos nasceram na terça-feira (6) com 34 semanas de gestação, unidos pela região pélvica — condição classificada como isquiópaga, em que os gémeos dividem estruturas do quadril e, frequentemente, sistemas digestivo e urinário. Após o parto, ambos foram encaminhados à Unidade de Terapia Intensiva Neonatal, onde receberam suporte respiratório e monitorização contínua.
Nas primeiras 24 horas de vida, a equipa realizou procedimentos de colostomia e vesicostomia para garantir o funcionamento dos sistemas digestivo e urinário. Essas medidas faziam parte do plano terapêutico, considerado essencial antes de qualquer tentativa de separação definitiva. Até então, não houve intercorrências relacionadas a essas cirurgias iniciais.
Intervenção de emergência
No fim da noite de quarta-feira, um dos recém-nascidos sofreu repetidas paradas cardíacas. Diante do agravamento rápido do quadro, os médicos decidiram antecipar a separação, que em situações comuns exige meses de preparação. O procedimento durou várias horas e, segundo Calil, foi tecnicamente bem-sucedido: as estruturas compartilhadas foram individualizadas e os sistemas vitais do segundo bebé mantiveram-se estáveis durante a operação.
Apesar do resultado cirúrgico considerado favorável, o gémeo sobrevivente apresentou instabilidade hemodinâmica na UTI e não resistiu nas horas seguintes. Em nota, Zacharias Calil lamentou as mortes e expressou solidariedade aos familiares, sublinhando que a decisão de operar de imediato visava dar a maior chance possível de sobrevivência ao segundo irmão.
Casos de isquiópagos são raros e representam elevado grau de complexidade cirúrgica, uma vez que a partilha de órgãos e vasos sanguíneos aumenta o risco de complicações. Mesmo em condições ideais, as taxas de mortalidade permanecem elevadas, especialmente quando a intervenção ocorre em prematuros ou em situações emergenciais.
Imagem: Internet
Gestação e estrutura de apoio
A mãe, Raylane Siqueira de Oliveira, 22 anos, realizou todo o pré-natal no Hemu. Moradora de Canarana, no interior de Mato Grosso, ela percorreu cerca de 600 quilómetros até Goiânia em busca de atendimento especializado. Segundo o hospital, não foram registadas anomalias relevantes durante o acompanhamento da gestação.
O parto, conduzido pelas obstetras Jéssica Alencar Rezende e Almiro Francisco Lopes, exigiu incisão uterina ampliada para permitir a retirada simultânea dos bebés, procedimento que aumenta o risco de hemorragia materna. A equipa relatou que a mãe evoluiu bem no pós-operatório e permanece em observação na enfermaria, sem complicações.
Referência nacional em separação de gémeos siameses, Zacharias Calil já participou em dezenas de procedimentos do género ao longo de mais de três décadas de carreira. No caso de Marcos e Matheus, o médico reiterou que a decisão de intervir sem o período habitual de preparação foi tomada em consenso com a equipa multidisciplinar, diante da deterioração rápida do quadro clínico de um dos bebés.





