Municípios brasileiros com cerca de 100 mil habitantes podem diminuir em um terço a sua pegada de carbono ao adotar práticas intermediárias de gestão de resíduos sólidos. A estimativa consta de um estudo da consultoria internacional S2F Partners, especializada em economia circular. O levantamento indica que, quando a administração de resíduos avança para um modelo mais robusto, a redução nas emissões de gases de efeito estufa pode ultrapassar 60%, tornando-se um dos caminhos mais eficientes de descarbonização urbana no país.
Como a gestão intermediária e avançada impacta as emissões
De acordo com a S2F Partners, a chamada gestão intermediária combina três requisitos: coleta universal do lixo domiciliar, índice de reciclagem em torno de 6% e disposição final em aterros sanitários equipados com sistemas de captação de metano e queima controlada do biogás. Nessas condições, as cidades analisadas apresentam potencial de reduzir 33,5% das emissões associadas aos resíduos.
Quando o município passa a operar num patamar considerado avançado — que inclui maiores taxas de reciclagem, valorização de materiais orgânicos e aproveitamento energético do biogás — o corte nas emissões chega a 61,7%. Segundo Carlos Silva Filho, sócio da S2F Partners e integrante do Conselho de Resíduos Sólidos das Nações Unidas, além do ganho climático, esse modelo gera benefícios adicionais como menor contaminação de solos e rios, melhores condições de saúde pública, emprego em cadeias de reciclagem e valorização imobiliária.
Situação atual: mais de 1,9 mil unidades inadequadas no país
Apesar das vantagens comprovadas, o Brasil ainda mantém cerca de 1,6 mil lixões em funcionamento, além de aproximadamente 300 aterros controlados, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). Essas 1,9 mil unidades operam sem licenciamento ambiental ou com estrutura insuficiente para tratar chorume e gases, situação que agrava a poluição do ar, do solo e da água.
Para Marçal Cavalcanti, presidente da Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente (Anamma), a persistência de lixões representa “grave risco à saúde humana”, pois favorece a proliferação de insetos e a emissão descontrolada de metano, gás com potencial de aquecimento global 28 vezes superior ao dióxido de carbono.
Por que melhorar a gestão de resíduos
Segundo o estudo, os resíduos sólidos respondem por parcela significativa das emissões urbanas, principalmente devido ao metano gerado na decomposição do lixo orgânico em aterros. A implantação de tecnologias de captura e queima do biogás, aliada a programas de reciclagem, reduz drasticamente esse impacto.
A consultoria destaca ainda que a legislação brasileira estabelece metas de eliminação de lixões e de recuperação energética. Contudo, a execução depende de articulação entre prefeituras, estados e iniciativa privada, seja por concessões ou parcerias público-privadas. Os municípios de porte médio, foco da pesquisa, concentram população suficiente para viabilizar financeiramente sistemas mais modernos sem perder a agilidade operacional necessária para mudanças rápidas.
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Custos e fontes de financiamento
A adoção de aterros sanitários com captura de metano exige investimentos iniciais mais altos, compensados pelo potencial de geração de créditos de carbono e pela venda de energia a partir do biogás. Programas federais e linhas de bancos públicos disponibilizam recursos para projetos de infraestrutura de saneamento, mas a consultoria alerta para a necessidade de planejamento a longo prazo para garantir sustentabilidade financeira.
Próximos passos para as cidades
Para atingir o nível intermediário de gestão, a S2F Partners recomenda que prefeituras priorizem a universalização da coleta, criem programas de educação ambiental para elevar o índice de reciclagem e iniciem a migração dos lixões para aterros licenciados. A etapa avançada requer ampliação de triagem de resíduos, implantação de centrais de compostagem e aproveitamento energético do biogás.
Conforme o estudo, a transição pode ser realizada em ciclos de planejamento de quatro a oito anos. Nesse período, a redução gradual de emissões já começa a ser percebida, o que contribui para o cumprimento das metas climáticas assumidas pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris.
Em síntese, a pesquisa evidencia que a gestão adequada dos resíduos sólidos oferece uma oportunidade concreta para os municípios reduzirem sua contribuição ao aquecimento global enquanto promovem melhor qualidade de vida à população. A expansão de sistemas intermediários e avançados desponta como estratégia imediata para cortar emissões, evitar passivos ambientais e impulsionar a economia circular nas cidades brasileiras.





