O Ministério das Comunicações trabalha para firmar, até o primeiro trimestre de 2026, um contrato entre a estatal Telebras e a operadora europeia SES. O objetivo é utilizar satélites de média órbita (MEO) para ampliar o acesso à internet em escolas públicas localizadas fora do alcance de redes terrestres.
A SES, sediada no Luxemburgo, é a única empresa que opera atualmente uma constelação comercial em órbita média, posição que oferece maior capacidade de tráfego e latência inferior às plataformas geoestacionárias. A tecnologia surge como alternativa à Starlink, da SpaceX, líder no mercado brasileiro de banda larga por satélite.
O governo prometeu conectar 138 mil escolas até o fim deste ano letivo e declara ter cumprido 70 % da meta. Segundo a pasta, parte dos 30 % restantes situa-se em áreas onde cabos de fibra e rádio não chegam. Para essas localidades, a capacidade hoje disponível na Telebras — baseada em satélites geoestacionários — não garante a velocidade mínima de 1 Mbps exigida para unidades com mais de 100 alunos.
Testes na COP e negociações em Luxemburgo
Telebras e SES assinaram um memorando de entendimento em outubro passado. No mês seguinte, durante a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP) em Belém, duas antenas de teste atingiram velocidades de até 500 Mbps ao receber sinal dos satélites MEO. O desempenho acelerou as tratativas entre as partes.
Em janeiro, representantes do ministério e da Telebras visitaram a sede da companhia europeia para conhecer o centro de operações, o teleporto e o suporte ao cliente. Enquanto o secretário de Telecomunicações, Hermano Tercius, retornou ao país, o diretor técnico-operacional da Telebras, André Fonseca, permaneceu em Luxemburgo para negociar cláusulas contratuais. A estatal, listada na B3, não comenta o andamento das conversas.
Diversificação de fornecedores e influência geopolítica
Até meados de 2023, a Telebras tinha a Viasat como fornecedora exclusiva de capacidade satelital. A atual gestão ampliou o leque, mas ainda baseada em satélites geoestacionários, posicionados a cerca de 35 mil quilômetros da Terra. A grande distância impõe latência elevada e limita a velocidade a patamares entre 20 Mbps e 60 Mbps, valores insuficientes para escolas com muitos estudantes.
Os satélites de média órbita, situados a aproximadamente 10 mil quilômetros, reduzem o tempo de resposta, consomem menos combustível em lançamentos e têm vida útil mais longa, fatores apontados pelo ministério como vantagens operacionais e ambientais. Hoje, porém, as antenas necessárias lembram um “cogumelo” de grandes dimensões. A SES promete versões mais compactas nas próximas gerações, com porte semelhante aos terminais da Starlink, capazes de serem instalados até em veículos.
A disputa pelo mercado brasileiro também recebe influência chinesa. Desde novembro de 2024, Telebras e Ministério das Comunicações mantêm um memorando de entendimento com a SpaceSail, empresa ligada ao governo municipal de Xangai. A companhia pretende iniciar operações no Brasil no último trimestre de 2026, usando uma constelação de baixa órbita (LEO) similar à da Starlink.
Imagem: Tecnologia & Inovação
A SpaceSail já solicitou autorização à Anatel para operar 648 satélites durante 15 anos e planeia alcançar 15 mil unidades até 2030. Além de contratos governamentais, a empresa projeta competir no segmento residencial e corporativo, hoje dominado pela rede de Elon Musk, responsável por 73 % dos acessos via satélite no país.
O secretário Hermano Tercius argumenta que a liderança da Starlink não elimina a necessidade de diversificação. “Queremos evitar dependência de um único fornecedor e de um único país”, afirma. Para o governo, a combinação de constelações em diferentes órbitas amplia a resiliência e atende a múltiplos perfis de demanda.
Outras frentes de conectividade
A expansão satelital integra um conjunto mais amplo de iniciativas. A Entidade Administradora da Conectividade de Escolas (EACE) organiza leilões financiados com recursos do leilão de 5G para levar fibra óptica a municípios. Pequenos provedores regionais também recebem apoio do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST), que investiu R$ 3,2 mil milhões em 2025.
No campo estratégico, o governo prepara o Plano Nacional de Satélites, em colaboração com os ministérios das Comunicações e da Defesa, Anatel e Telebras. A proposta é criar um sistema que reúna plataformas geoestacionárias, MEO e LEO, com foco em escolas, unidades de saúde, órgãos públicos e Forças Armadas.
Paralelamente, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação desenvolve o Sistema Brasileiro de Posicionamento, Navegação e Tempo (PNT), popularmente chamado de “GPS brasileiro”. A entrega do plano está prevista para 2026 e busca reduzir a dependência do sistema norte-americano.
Com esses movimentos, 2026 tende a ser um ano decisivo para a infraestrutura espacial do Brasil. A entrada de novos fornecedores, a adoção de múltiplas órbitas e a implementação de programas nacionais sinalizam uma mudança estrutural no modo como o país pretende conectar escolas e demais serviços públicos em áreas remotas.





