Graduandos da primeira licenciatura brasileira em inteligência artificial, oferecida pela Universidade Federal de Goiás (UFG), estão a alcançar rendimentos mensais que chegam a R$ 23 mil enquanto ainda frequentam a faculdade. Os valores resultam de bolsas pagas por empresas que recorrem ao Centro de Excelência em IA (CEIA-UFG) para desenvolver soluções tecnológicas de ponta.
Modelo de ensino baseado em projetos
O curso, iniciado em 2019, foi desenhado para concentrar a aprendizagem em problemas práticos. Sob coordenação do professor Anderson Soares, o currículo privilegia atividades em laboratório e a participação direta dos estudantes em projetos corporativos. Essa abordagem, conhecida como “Aprendizagem Baseada em Problemas” (PBL), reduz a carga teórica tradicional e abre espaço para experiências em contexto real.
Para integrar os projetos, o aluno precisa mostrar desempenho destacado em sala de aula. Os valores pagos começam entre R$ 500 e R$ 1.200, de acordo com a exigência técnica de cada tarefa. À medida que o estudante acumula conhecimento e experiência, pode assumir funções mais complexas, com remunerações superiores. Foi o que aconteceu com Daniel Fazzioni, 27 anos, que participou da construção do Gaia, modelo de IA criado pelo Google em parceria com a Associação Brasileira de IA e duas startups. Somando bolsas e contratos, Fazzioni chegou a receber mais de R$ 23 mil em determinados meses.
A busca por desafios intelectuais é apontada pelos próprios alunos como principal motivação. Segundo Priscila Maia, 22 anos, bolsista em quatro projetos simultâneos, o retorno financeiro é expressivo, mas o foco continua na aprendizagem. Mesmo quando uma nova tarefa reduziu momentaneamente o valor que recebia, a estudante optou por aceitar o convite para desenvolver competências ainda pouco exploradas.
Ganhos refletem expansão do CEIA-UFG
O Centro de Excelência em IA funciona como interface entre a universidade e o mercado. Empresas de grande porte — entre elas Google, iFood, Cemig e TV Globo — contratam o CEIA para desenvolver algoritmos, sistemas de visão computacional e agentes inteligentes. Somente em 2025, o centro movimentou R$ 101 milhões, dos quais R$ 71 milhões em 44 projetos financiados pela Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).
Os recursos públicos que sustentam a infraestrutura do CEIA vêm principalmente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) e da própria Embrapii. Esse modelo diminui o risco financeiro das companhias e estimula a transferência de tecnologia para o setor produtivo. Para a UFG, o retorno aparece em três frentes apontadas pelo professor Soares: eficiência pedagógica, fortalecimento da extensão universitária e aproximação com a sociedade. Para as empresas, há acesso rápido a equipes qualificadas e inovações na fronteira do conhecimento. Para os estudantes, surge a oportunidade de entrar no mercado antes da formatura e conquistar independência financeira.
A procura por essa formação elevou a nota de corte do curso de IA acima da Medicina, tornando-se a mais alta da instituição. O sucesso também chamou a atenção de outras universidades. Em 2025, oito delas visitaram o campus em Goiânia para conhecer a estrutura e avaliar a adoção de metodologia semelhante.
Imagem: Tecnologia & Inovação
Projetos atingem diversos setores
Entre as iniciativas conduzidas pelos estudantes estão:
- Agentes inteligentes para o setor elétrico, encomendados pela Cemig;
- Sistema de tratamento de imagem para transmissões da TV Globo;
- Análise automatizada de danos veiculares para a startup Cilia Tecnologia.
Os resultados comprovam a capacidade de expansão da pesquisa de alto nível para além do eixo Rio-São Paulo. A participação de universidades em Goiás, Paraíba, Paraná e Pernambuco contribui para desconcentrar a produção de tecnologia no país.
Perspectivas para os graduandos
Apesar dos salários já considerados elevados no mercado de tecnologia, muitos alunos planeiam continuar na academia. Recém-formado, Daniel Fazzioni recebeu propostas de emprego na faixa de R$ 25 mil mensais, além de pacotes de ações, mas pretende ingressar no mestrado para aprofundar estudos.
O interesse em permanecer no ambiente universitário indica que a combinação entre prática e pesquisa pode gerar profissionais altamente especializados, capazes de atender à crescente demanda por soluções de IA no Brasil. Enquanto isso, a UFG consolida-se como referência nacional, mostrando que investimentos públicos dirigidos e parcerias com o setor privado podem acelerar a formação de talentos e a inovação tecnológica.





