Pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) estão a desenvolver um modelo de inteligência artificial destinado a ler, interpretar e classificar o DNA de brasileiros. A iniciativa quer superar limitações dos testes genéticos atuais, normalmente treinados com dados de populações europeias ou norte-americanas, e reduzir o custo dessas análises em até 95%.
Motivações e obstáculos dos exames existentes
Hoje, os principais painéis de sequenciação utilizam referências estrangeiras, o que dificulta a identificação de variantes específicas da população nacional. Além disso, o processo convencional exige:
- Equipamentos grandes e caros, que só entram em operação quando todas as 64 posições de amostra estão preenchidas, atrasando o início das análises;
- Etapas laboratoriais manuais, dependentes de profissionais altamente qualificados;
- Interpretação final realizada por geneticistas, o que prolonga a entrega do laudo em várias semanas;
- Custos que variam de R$ 400 a quase R$ 10 000, conforme a complexidade do exame.
Segundo a equipa da UFG, esse método deixa grande parte da diversidade genética brasileira fora do radar e dificulta o acesso da população a diagnósticos de precisão.
Três fases de treino para a “IA do DNA brasileiro”
O projeto prevê etapas de aprendizagem progressiva:
- Estrutura da linguagem genômica: o algoritmo absorverá sintaxe e semântica do DNA usando bases de dados públicas internacionais;
- Variações frequentes no Brasil: sequências do Arquivo Brasileiro Online de Mutações (ABraOM), mantido pela USP, servirão para ensinar o modelo a reconhecer mutações comuns — e muitas vezes classificadas como patogénicas lá fora apenas por serem raras na Europa;
- Classificação clínica: a ferramenta cruzará informações do ClinVar, repositório do Instituto Nacional de Saúde dos EUA, com genomas de pacientes brasileiros diagnosticados com cancro. O Laboratório de Genética da UFG fornecerá esses dados.
A expectativa é obter resultados funcionais de classificação em seis a sete meses. A Amazon Web Services (AWS) disponibilizará a infraestrutura de computação necessária, orçada em milhões de reais, conforme estimativa preliminar dos responsáveis.
Portabilidade e rapidez nos novos exames
Além do modelo de IA, a equipa quer substituir as máquinas de bancada por um sequenciador portátil de 130 gramas, capaz de gerar leituras quase instantâneas. Com o dispositivo móvel e a análise automatizada, cada amostra poderia ser processada individualmente, reduzindo o prazo total de vários meses para cerca de oito horas.
Imagem: Tecnologia & Inovação
Se os testes confirmarem as hipóteses, o custo por paciente poderá cair para cerca de US$ 17, valor que representa economias de até 95% em comparação com os preços praticados hoje no mercado brasileiro.
Primeiro alvo: câncer de mama
A versão inicial da IA focará em mutações relacionadas ao câncer de mama, tema para o qual o laboratório da UFG já dispõe de bases clínicas. Em seguida, o algoritmo poderá ser ajustado para outras neoplasias e doenças hereditárias.
Projeções de longo prazo
Após aprender a “gramática” do DNA, o modelo tem potencial para escrever sequências genéticas destinadas a aplicações industriais ou agrícolas. Entre os exemplos citados pela equipa estão bactérias que degradam plástico e variedades de soja resistentes a pragas. Essas possibilidades ainda dependem de pesquisas adicionais e de regulamentação específica.
Combinando IA fundacional, banco de dados nacionais e equipamento portátil, o projeto goiano busca democratizar o acesso a diagnósticos genéticos mais rápidos, precisos e económicos, colocando o Brasil na vanguarda do uso de inteligência artificial na genómica.





