Dois criadores de conteúdo afirmam ter recebido propostas pagas para publicar vídeos favoráveis ao Banco Master e críticos à atuação do Banco Central durante o processo de liquidação extrajudicial da instituição financeira. Os relatos indicam a utilização de estratégias típicas de campanhas coordenadas, conhecidas como astroturfing, em que mensagens patrocinadas se fazem passar por manifestações espontâneas nas redes sociais.
Proposta aos influenciadores
Os influenciadores Rony Gabriel e Juliana Moreira Leite divulgaram que foram abordados por representantes interessados em contratar conteúdos que contestassem a decisão do Banco Central (BC) de liquidar o Banco Master. Segundo eles, a oferta incluía orientação editorial, remuneração financeira e a exigência de que os vídeos transmitissem confiança na solidez do banco, sugerindo, ao mesmo tempo, dúvida sobre os fundamentos da intervenção do BC.
Embora não tenham aceitado o acordo, os dois comunicadores apresentaram capturas de tela de conversas em aplicativos de mensagens que, segundo suas versões, comprovariam a tentativa de direcionamento. A proposta previa a publicação de comentários contrários à autarquia sem a identificação de patrocínio, prática que viola as normas do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), que exige transparência sobre conteúdo comercial.
Estratégia de mobilização artificial
A contratação de influenciadores para defender interesses privados não é novidade no ambiente digital. No entanto, especialistas apontam que o caso do Banco Master se diferencia pelo grau de coordenação e pelo alvo das críticas: um órgão regulador do sistema financeiro. A tática buscaria produzir pressão pública sobre o BC, o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Supremo Tribunal Federal (STF), onde tramitam questionamentos contra a liquidação.
Nesse tipo de operação, contas autênticas ou automatizadas amplificam conteúdos patrocinados, gerando a impressão de amplo apoio popular. O fenômeno, associado a ações de milícias digitais, pode influenciar a percepção de estabilidade do mercado, alterar expectativas de investidores e afetar decisões patrimoniais de grande escala.
Possíveis enquadramentos legais
A legislação brasileira prevê sanções para campanhas que disseminem informações falsas ou incompletas sobre instituições financeiras. O artigo 3.º da Lei 7.492/1986 estabelece pena de dois a seis anos de reclusão e multa para quem divulgar dados inverídicos ou prejudicialmente incompletos relativos ao sistema financeiro nacional.
Além disso, o Código de Defesa do Consumidor tipifica como crime a veiculação de publicidade enganosa ou abusiva, sujeitando o responsável a detenção de três meses a um ano, além de multa. Advogados consultados ressaltam que, se comprovada a intenção de manipular a opinião pública para benefício econômico, também podem ser analisados os crimes de associação criminosa e concorrência desleal.
Imagem: Tecnologia e Inovação
Impacto na confiança do sistema
A intervenção do Banco Central no Banco Master foi motivada por irregularidades identificadas na gestão de investimentos oferecidos a milhares de clientes. Desde o anúncio da liquidação, parte dos correntistas busca informações sobre o destino dos recursos aplicados. Em um cenário de elevada sensibilidade, conteúdos que questionem a legitimidade da ação do BC podem abalar ainda mais a confiança no processo de supervisão financeira.
Para analistas de mercado, a credibilidade das instituições reguladoras é um ativo sistémico: abalos de confiança tendem a se espalhar com rapidez, ampliando riscos de instabilidade. Campanhas que explorem dúvidas ou desinformação sobre decisões técnicas podem, portanto, ter repercussões além dos interesses de uma única empresa.
Ações de fiscalização em curso
A Polícia Federal acompanha o caso para apurar eventual prática de crime contra o sistema financeiro, enquanto o Conar avalia se houve infração às regras de publicidade. Paralelamente, o TCU e o STF analisam pedidos apresentados por representantes do Banco Master que contestam a liquidação decretada pelo Banco Central.
Caso se confirmem pagamentos ocultos a influenciadores para influenciar a opinião pública, as investigações poderão avançar sobre quem financiou a campanha, quais valores foram repassados e de que forma os conteúdos foram distribuídos. Dependendo das conclusões, podem surgir responsabilizações civis, administrativas e penais tanto para os contratantes quanto para os criadores que eventualmente tenham aderido às orientações.
Até o momento, o Banco Master não comentou publicamente os relatos dos influenciadores. O Banco Central reafirma que a liquidação extrajudicial seguiu critérios técnicos previstos na legislação e que continuará a colaborar com os órgãos de controle. Já os criadores de conteúdo envolvidos dizem ter entregue as provas recebidas às autoridades competentes.





