São Gonçalo (RJ) — Um homem de 29 anos permanece em coma induzido e em estado crítico após receber ácido peracético durante uma sessão de hemodiálise numa clínica credenciada ao Sistema Único de Saúde (SUS). O incidente, registado em 20 de agosto, ocorreu na Clínica de Hemodiálise Nice, localizada no bairro São Miguel, na região metropolitana do Rio de Janeiro.
Erro na sessão e primeiros socorros
Segundo relato da família, Bruno Rodrigues Ventura dos Santos fazia tratamento de hemodiálise havia cerca de um ano, com três sessões semanais. Na manhã do dia 20, ele chegou à unidade por volta das 6h30 para o procedimento habitual. Cerca de uma hora depois, parentes notaram uma movimentação intensa dentro da clínica.
Ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e do Corpo de Bombeiros chegaram ao local pouco depois das 7h30. Os familiares só descobriram que o paciente socorrido era Bruno quando o encontraram já entubado, apresentando sangramento e inchaço. De acordo com o pai, Márcio Luiz Alves dos Santos, um médico da clínica informou que o filho tivera contato direto com ácido peracético — desinfetante de alta toxicidade usado para esterilizar equipamentos, mas impróprio para infusão em seres humanos.
Estado de saúde e transferência
Bruno foi levado de imediato ao Centro de Terapia Intensiva (CTI) do Pronto-Socorro Central de São Gonçalo. O laudo de admissão médica confirma “episódio secundário à infusão acidental de ácido peracético na clínica de origem” e classifica o quadro como gravíssimo. O paciente permanece em coma induzido, com lesão cerebral cuja extensão ainda não pôde ser determinada pela equipa médica.
Antes do incidente, Bruno levava uma rotina considerada ativa, apesar da insuficiência renal crónica. Ele trabalhava como entregador, mas encontrava-se afastado após concessão de auxílio-doença pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Investigação sanitária e policial
A família registou boletim de ocorrência na 72ª Delegacia de Polícia (São Gonçalo) por lesão corporal. A Polícia Civil abriu inquérito para apurar as circunstâncias da intoxicação e recolheu documentos médicos, além de ouvir profissionais e testemunhas.
Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro informou ter iniciado investigação própria. Equipes da Vigilância Sanitária estadual estiveram na clínica em 27 de agosto e constataram que as licenças sanitárias estavam vigentes. A pasta declarou que o caso será analisado “de forma minuciosa” para esclarecer responsabilidades e adotar eventuais medidas punitivas.
Já a Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil de São Gonçalo destacou que a Clínica de Hemodiálise Nice é habilitada para procedimentos de alta complexidade pelo SUS e recebe pacientes por meio do Sistema Estadual de Regulação. A fiscalização rotineira, segundo o órgão municipal, cabe à Vigilância Sanitária estadual, que foi notificada imediatamente após o incidente.

Imagem: Internet
Posicionamento da clínica
Até o momento, a direção da Clínica de Hemodiálise Nice não apresentou esclarecimentos públicos sobre a falha que resultou na infusão de ácido peracético. A reportagem tentou contato com a administração da unidade, mas não obteve retorno.
Sobre o ácido peracético
O ácido peracético é um agente oxidante utilizado na desinfeção de equipamentos médicos pela sua eficácia contra bactérias, vírus e fungos. A substância, porém, não deve entrar em contato com tecidos humanos; a exposição direta pode provocar queimaduras químicas, falência orgânica e, em casos extremos, morte.
Medidas futuras e acompanhamento
Autoridades de saúde afirmam que os resultados das perícias laboratoriais e das inspeções sanitárias serão fundamentais para determinar se houve falha de protocolo, erro humano ou problema técnico no sistema de diálise. Dependendo das conclusões, a clínica poderá sofrer sanções administrativas, multas ou até suspensão de atividades.
A família acompanha a investigação e aguarda definições enquanto Bruno permanece internado. Os médicos mantêm o paciente sob ventilação mecânica e monitorização contínua, sem previsão de alta da unidade intensiva.
O caso levanta preocupações sobre a segurança em procedimentos de hemodiálise, que exigem rigor no controle de substâncias usadas para higienizar as máquinas. Órgãos reguladores reiteram a importância de checagens múltiplas antes de cada sessão para evitar contaminações e acidentes semelhantes.