Uma equipa internacional identificou uma estrutura alongada composta por átomos de ferro ionizado no interior da Nebulosa do Anel, objeto celeste localizado na constelação de Lira. A descoberta altera a aparência clássica da nebulosa, que deixa de se assemelhar a um anel regular e passa a lembrar a cabeça de um parafuso ou a letra grega teta (Θ).
Dimensões e composição da nova estrutura
De acordo com as medições iniciais, a “barra” possui comprimento equivalente a cerca de 500 vezes o diâmetro da órbita de Plutão. A massa total estimada de átomos de ferro corresponde aproximadamente à massa do planeta Marte, valor considerado elevado para um único elemento concentrado numa nebulosa planetária. A formação estende-se pelo interior da nebulosa, cruzando a região que antes parecia vazia.
A concentração de ferro em estado ionizado surpreendeu os investigadores, pois este metal costuma condensar-se em poeira ou distribuir-se de forma menos evidente em objetos semelhantes. A presença de um arco tão definido sugere processos físicos ainda não descritos em detalhes nos modelos atuais de evolução estelar.
Observações realizadas com o telescópio William Herschel
A deteção foi conduzida com o instrumento WEAVE (WHT Enhanced Area Velocity Explorer), instalado no telescópio William Herschel, nas Ilhas Canárias. O dispositivo emprega centenas de fibras ópticas para recolher, simultaneamente, espectros de todos os pontos do campo de visão. Esse mapeamento espectral integral da Nebulosa do Anel, em todo o intervalo óptico, foi realizado pela primeira vez.
Roger Wesson, investigador que lidera o estudo, destacou que diversos telescópios haviam observado a nebulosa, mas nenhum fornecera dados contínuos de alta resolução espectral em toda a sua face. O WEAVE permitiu gerar imagens em qualquer comprimento de onda selecionado, facilitando a identificação de elementos químicos em cada posição do objeto. Foi nesse conjunto de imagens que a barra de ferro se destacou com nitidez.
O método utilizado separa a luz em seus diferentes comprimentos de onda, revelando assinaturas específicas de cada elemento. No caso do ferro, linhas de emissão características tornaram a nuvem metálica facilmente reconhecível quando os dados foram processados.
Imagem: NewsUp Brasil
Hipóteses para a origem da barra metálica
Os cientistas consideram dois cenários principais para explicar a presença da estrutura. O primeiro sugere que a nuvem de ferro possa ser remanescente de uma ejeção assimétrica de material durante as últimas fases da estrela progenitora, etapa em que a estrela expulsa as camadas externas antes de se tornar anã branca. A morfologia peculiar indicaria um mecanismo de ejeção ainda por compreender.
O segundo cenário propõe que a barra possa representar um arco de plasma formado pela vaporização de um planeta rochoso que foi engolido quando a estrela se expandiu nas fases finais de sua vida. Durante esse processo, o material planetário poderia ter sido aquecido a ponto de ionizar e concentrar grande quantidade de ferro. Contudo, os próprios autores reconhecem que a explicação não resolve totalmente a questão da elevada concentração de apenas um metal.
Próximos passos da investigação
A equipa já prepara um estudo de seguimento com dados de resolução espectral superior. O objetivo é medir com maior precisão a distribuição de temperatura, densidade e composição química ao longo da barra, fatores necessários para restringir os modelos físicos que descrevem a sua formação. Observações adicionais com outros instrumentos, possivelmente em faixas de infravermelho e rádio, também estão em avaliação para esclarecer a interação entre a barra metálica e o gás circundante.
Além de fornecer pistas sobre processos internos da Nebulosa do Anel, a descoberta pode ter implicações para a compreensão de como as nebulosas planetárias evoluem e como elementos pesados se distribuem no espaço interestelar. Os resultados preliminares serão submetidos a revisão por pares antes de publicação em revista especializada.





