O governo iraniano mantém, desde 8 de janeiro de 2026, um bloqueio quase total ao acesso à internet no país. A medida acompanha a escalada de protestos contra a crise económica e a desvalorização do rial, que começaram no fim de 2025 e se estenderam por várias cidades. Segundo a organização Netblocks, o corte afeta redes fixas e móveis, gerando um impacto financeiro diário estimado em 37 milhões de dólares.
Bloqueio iniciado em 8 de janeiro
Os protestos tiveram origem em 28 de dezembro, quando comerciantes do bazar de Teerã paralisaram atividades contra a inflação. Nos dias seguintes, as manifestações ganharam adesão popular e atingiram outras regiões. Para limitar a comunicação entre manifestantes e reduzir a difusão de informações, o governo ordenou a suspensão de serviços de internet a partir de 8 de janeiro. Dados em tempo real do Netblocks mostram queda abrupta no tráfego nacional logo após a implementação da medida.
O controle estatal sobre o setor de telecomunicações facilita a interrupção centralizada da conectividade. Provedores locais recebem determinações diretas para desligar rotas internacionais, restringindo acesso a sites e aplicações de mensagens. A ação repete estratégias adotadas em períodos de instabilidade anteriores, como o movimento “Mulheres, Vida, Liberdade”, em 2022 e 2023.
Técnicas de interferência em redes móveis
A limitação do sinal celular utiliza equipamentos de interferência de radiofrequência, conhecidos como jammers. Esses sistemas, de uso militar, emitem ondas que sobrepõem frequências utilizadas pelas operadoras, impedindo a transmissão de dados em áreas determinadas. A tecnologia é semelhante à empregada para neutralizar drones, mas adaptada para bloquear comunicações móveis.
Especialistas citados pelo jornal britânico The Guardian afirmam que a aplicação de jammers em larga escala exige consumo elevado de energia e cobertura geográfica extensa. Mesmo com essas limitações, o método tem sido suficiente para criar zonas de silêncio informativo nas principais cidades. Moradores relatam total ausência de sinal 4G e instabilidade prolongada em linhas fixas.
Starlink opera de forma clandestina
Apesar da proibição imposta por lei de 2025, terminais de internet via satélite Starlink continuam a funcionar clandestinamente no Irã. Estimativas de fontes independentes indicam entre 50 mil e 100 mil unidades ativas, número modesto perante os cerca de 92 milhões de habitantes do país. Os dispositivos entram por contrabando e são instalados, sobretudo, em áreas urbanas.
Autoridades intensificaram a busca por antenas. Drones são utilizados para identificar terminais instalados em telhados de imóveis. A legislação prevê até 10 anos de prisão para quem for apanhado usando o serviço. Mesmo assim, a rede de satélites torna-se opção para jornalistas, organizações civis e particulares que necessitam de comunicação externa.
Imagem: Tecnologia Inovação Notícias
Consequências económicas e sociais
Além de restringir o fluxo de informações, o bloqueio afeta setores dependentes de transações online. Comércio eletrónico, serviços de pagamento e pequenas empresas relatam quedas abruptas nas vendas. A Netblocks calcula prejuízo diário de 37 milhões de dólares, valor que agrava a já delicada situação económica nacional.
As restrições também impactam fornecimento de serviços públicos que operam com sistemas conectados. Plataformas de saúde, educação e transporte reportam atrasos e cancelamentos. Em paralelo, organizações de direitos humanos alertam para o risco de violações durante a falta de visibilidade, já que denúncias e provas em vídeo tornam-se mais difíceis de partilhar.
Contexto dos protestos
A atual onda de manifestações é a maior desde 2023. O gatilho foi o aumento de preços e a contínua desvalorização da moeda local, que comprometeram o poder de compra da população. Sindicatos e associações comerciais organizaram greves e marchas em Teerã, rapidamente replicadas em cidades do interior.
Relatórios de organizações internacionais apontam para milhares de detenções e dezenas de mortes desde o início dos protestos. Sem acesso estável à internet, familiares de detidos enfrentam dificuldades para obter informações, enquanto advogados relatam obstáculos para acompanhar processos.
Até o momento, o governo não anunciou prazo para restabelecer totalmente a conectividade. Analistas acompanham os impactos económicos e o desenrolar das manifestações, enquanto residentes procuram alternativas para se manterem informados e comunicar com o exterior.





