Grupos criados para oferecer suporte a mulheres após o parto estão a transformar-se, em muitos casos, em ambientes de julgamento e competição. Relatos de mães no Reino Unido, Estados Unidos e outros países indicam que a comparação constante sobre métodos de parto, amamentação e rotinas de criação tem afastado quem procura companhia num período marcado por isolamento social.
Busca por apoio social converte-se em fonte de stress
Martina, na casa dos 30 anos e moradora do País de Gales, inscreveu-se num curso de linguagem de sinais para bebés para conhecer vizinhas na mesma fase de vida. Ao fim de três sessões, decidiu sair. Segundo conta, outras participantes ridicularizavam o uso de mamadeira e a escolha pela cesariana eletiva, fazendo-a sentir-se “preguiçosa” e incapaz de integrar o grupo.
Casos semelhantes chegaram ao debate público depois de a cantora e atriz Ashley Tisdale, mãe desde 2021, mencionar em artigo recente que foi excluída de encontros organizados por outras mães norte-americanas. A artista, que antes destacava os benefícios desse tipo de convivência, narrou um ambiente de preferências veladas e convites seletivos.
Para muitas mulheres, a motivação inicial para aderir a grupos presenciais ou online é a quebra do isolamento típico do pós-parto. Quando a interação deriva para críticas indiretas ou piadas sobre decisões pessoais, o resultado costuma ser o oposto: aumento da solidão e insegurança.
Especialistas analisam dinâmica de “mães malvadas”
A psicóloga clínica Noëlle Santorelli classifica a maternidade como “uma das mudanças de identidade mais profundas” que uma mulher pode vivenciar. Ela cunhou o termo “mean girl moms” para descrever comportamentos de exclusão, fofocas e comentários passivo-agressivos observados em círculos de apoio. De acordo com a profissional, a competição pode emergir de inseguranças individuais e do receio de falhar num papel socialmente valorizado.
Santorelli afirma que muitas vítimas não entendem por que deixaram de receber mensagens ou convites, o que agrava sentimentos de vergonha e culpa. Quando questionadas, algumas preferem retirar-se gradualmente para se proteger, sobretudo se o grupo envolve vizinhos ou colegas de escola dos filhos.
A autora britânica Michelle Elman, especialista em término de amizades, adota posição distinta. Ela defende o confronto respeitoso como forma de oferecer ao agressor a chance de rever atitudes. Sem diálogo, argumenta, o fim da relação é inevitável.
Relatos de exclusão nos Estados Unidos e no Reino Unido
Rachel, residente na Virgínia, juntou-se a um grupo local quando percebeu a redução de convites de amigos sem filhos. Inicialmente, a experiência incluiu aniversários partilhados e viagens em família. Com o tempo, pequenos desentendimentos entre mães e crianças acumularam-se, até que ela também deixou de ser convidada. Ao tentar discutir o assunto, ouviu que “arruinara a noite” de outra participante e foi afastada.
Imagem: Internet
Em Londres, Kelly procurava companhia depois do primeiro filho, mas relata ter sido intimidada por uma integrante mais dominante. Sentindo-se fora do padrão socioeconómico da maioria, preferiu abandonar encontros e não ingressar em novos chats escolares. Anos depois, fez amizade casual com outra mãe num curso sensorial para bebés, relação que descreve como livre de julgamentos.
Autoavaliação e impacto nos filhos
Algumas participantes admitem ter contribuído para o ambiente hostil. Rachel recorda ter zombado de uma mãe que chegava atrasada ao pilates, atitude que hoje considera cruel. Martina percebe que, mesmo criticada, por vezes julgava pais que levantavam a voz com os filhos. Essas reflexões evidenciam, segundo especialistas, que o problema se sustenta num ciclo de comparação mútua.
Além dos efeitos na saúde mental das mães, há preocupação com o exemplo transmitido às crianças, que observam padrões de exclusão e rivalidade desde cedo. “Não há solução perfeita”, resume Martina, dividida entre a incompreensão de amigos sem filhos e o receio de novos julgamentos em grupos maternos.
Alternativas para relações mais saudáveis
Profissionais de saúde mental recomendam definir limites claros sobre temas sensíveis, como tipo de parto ou alimentação, antes de ingressar num grupo. Selecionar espaços moderados por especialistas ou instituições também reduz a probabilidade de comentários invasivos. Quando o conflito já se instalou, opções variam entre o distanciamento gradual e o diálogo direto, dependendo do equilíbrio de poder entre as envolvidas.
Apesar dos episódios de exclusão, muitas mães continuam a buscar redes de apoio presenciais e virtuais. A expectativa é que a consciencialização sobre os riscos de julgamentos transforme gradualmente a cultura desses grupos, devolvendo-lhes a função original de partilhar experiências e aliviar a solidão do pós-parto.





