Em muitos atlas e salas de aula, a Groenlândia surge como um bloco colossal que parece rivalizar com a África. A impressão, contudo, resulta de uma distorção cartográfica mantida há mais de quatro séculos e que continua a influenciar a percepção sobre o tamanho real dos continentes.
Origem da projeção que amplia áreas próximas aos polos
A origem do equívoco remonta a 1596, quando o cartógrafo flamengo Gerardus Mercator apresentou a Projeção de Mercator. O método foi concebido para navegação marítima: ao preservar ângulos e direções, ajudava navegadores a traçar rotas em linha reta sobre a carta. Para alcançar essa precisão angular, a projeção estica as áreas conforme se aproximam dos polos norte e sul.
Esse alongamento faz com que territórios de altas latitudes pareçam muito maiores do que realmente são. A Groenlândia, por exemplo, tem cerca de 2,1 milhões de quilómetros quadrados, mas, nos mapas de Mercator, pode parecer maior que toda a África. Na prática, o continente africano soma em torno de 30 milhões de quilómetros quadrados, aproximadamente 14 vezes a área da ilha do Ártico.
A Europa também desponta com dimensões mais generosas nesses mapas, enquanto regiões próximas à linha do Equador, como a África, o Sudeste Asiático e a América do Sul, ficam comprimidas. O resultado é um mapa familiar para gerações de estudantes, mas que transmite uma escala territorial pouco fiel.
Consequências práticas e reações recentes
A persistência da Projeção de Mercator em livros didáticos, plataformas de mapas impressos e interfaces digitais impacta a forma como diferentes regiões do mundo são percebidas. Organizações internacionais e académicos apontam que a representação inflacionada do Hemisfério Norte pode reforçar visões eurocêntricas ou subestimar a importância geográfica de países tropicais.
Em 2023, a União Africana apoiou oficialmente a adoção de representações alternativas, como a Equal Earth. Essa projeção tenta equilibrar a preservação das formas dos continentes com a fidelidade de área, reduzindo as distorções que favorecem latitudes elevadas.
Ferramentas digitais também oferecem soluções. Plataformas como o Google Earth recorrem a modelos tridimensionais, apresentando o planeta como um globo e eliminando o estiramento típico de mapas planos. Ao alternar entre a vista esférica e representações planas, utilizadores conseguem comparar a diferença de escala e notar que a Groenlândia é significativamente menor do que aparenta.
Quando a política entra em cena
A discussão sobre o tamanho da Groenlândia ganhou destaque adicional em 2019, quando o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, manifestou interesse em comprar o território autónomo administrado pela Dinamarca. Em livro publicado em 2022, Trump descreveu a ilha como “enorme”, comentário que reacendeu o debate sobre as distorções cartográficas. Embora a proposta não tenha avançado, o episódio ilustrou como perceções visuais podem influenciar declarações políticas e a opinião pública.
Imagem: Internet
Alternativas para um mapa mais fiel
Vários especialistas defendem o uso de projeções que preservem a proporção de áreas para fins educacionais. Entre elas destacam-se:
• Equal Earth: desenvolvida por cartógrafos americanos em 2018, procura combinar proporção de área com forma relativamente equilibrada dos continentes.
• Robinson: popular em publicações globais, oferece um compromisso entre distorção mínima e aparência agradável.
• Peters: conhecida por priorizar a igualdade de área, embora distorça as formas dos continentes.
A substituição do mapa de Mercator por esses modelos em materiais didáticos poderia atenuar equívocos sobre a dimensão relativa dos países e regiões. A mudança, porém, exige revisão de currículos, adaptação de livros e formação de professores.
Por que o tema continua relevante
Apesar dos avanços tecnológicos, mapas impressos seguem omnipresentes em escolas, repartições públicas e meios de comunicação. A familiaridade com a projeção de Mercator, aliada à sua utilidade histórica na navegação, mantém o formato em circulação. Contudo, a consciência crescente sobre seus efeitos na percepção geopolítica pressiona governos, entidades educativas e empresas de tecnologia a reconsiderar o padrão.
A Groenlândia, que acumula cerca de 56 mil habitantes numa superfície quase toda coberta por gelo, permanece um símbolo dessa discussão. Enquanto a realidade geográfica mostra uma ilha pequena quando comparada à África ou à América do Sul, o mapa tradicional insiste em um contorno gigante que, na prática, não existe.
Aos poucos, educadores, cartógrafos e organizações internacionais defendem projeções que espelhem a Terra com mais precisão. O debate não se limita à correção de um detalhe técnico: envolve o modo como espaços, populações e recursos são entendidos em escala global.





