Material inspirado no DNA armazena o dobro de energia das baterias de lítio

Tecnologia e Inovação

Uma equipa da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, apresentou um composto orgânico capaz de armazenar energia solar com densidade superior a 1,6 megajoules por quilograma, valor que ultrapassa em quase 80 % a capacidade típica de uma bateria de íons de lítio. O desenvolvimento, liderado pela química Han Nguyen, baseia-se numa molécula derivada da pirimidona, estrutura presente no DNA que pode sofrer alterações reversíveis quando exposta à luz. Ao transformar esse princípio biológico num dispositivo de armazenamento, o grupo criou um sistema descrito como “bateria solar recarregável” que capta luz, guarda energia na forma de ligações químicas e a devolve em forma de calor sempre que necessário.

Mecanismo químico inspirado em lentes fotocromáticas

O funcionamento do novo material lembra o comportamento das lentes fotocromáticas, que escurecem sob radiação ultravioleta e regressam ao estado transparente na ausência de luz. No caso da pirimidona sintética, entretanto, a transição não altera a cor; ela acumula energia. Quando os fotões solares atingem a substância, a molécula sofre uma torção que a coloca num estado tenso e de alto conteúdo energético. Esse estado permanece preservado por longos períodos porque as ligações químicas criadas são estáveis a temperatura ambiente.

Para liberar o conteúdo armazenado, basta fornecer um pequeno estímulo – calor moderado ou a presença de um catalisador químico. A molécula então retorna à configuração original, liberando o excedente energético como calor. Em seguida, o composto pode ser exposto novamente ao sol para repetir o ciclo. De acordo com a equipa, a estrutura conserva a capacidade de carga durante vários anos sem degradação mensurável, característica fundamental para qualquer sistema de armazenamento de médio ou longo prazo.

A escolha da pirimidona não foi aleatória. No DNA, bases nitrogenadas semelhantes sofrem reações fotoquímicas reversíveis, mas no organismo essas alterações costumam representar dano genético. Ao reproduzir apenas o trecho molecular relevante e ajustá-lo em laboratório, os investigadores obtiveram uma versão sintética que aproveita o efeito fotofísico de forma controlada e segura. O resultado é uma molécula com comportamento equivalente ao de uma mola mecânica: comprime-se quando excitada pela luz e distende-se para libertar calor sob comando externo.

Densidade de energia e comparação com íons de lítio

Ensaios em escala de laboratório indicaram densidade de armazenamento superior a 1,6 MJ/kg, valor que supera tanto baterias comerciais de íons de lítio (aproximadamente 0,9 MJ/kg) quanto gerações anteriores de materiais classificados como “interruptores ópticos”. A diferença coloca o novo composto num patamar até agora restrito a combustíveis químicos, mas sem libertação de gases ou processos de combustão.

A elevada densidade abre caminho para aplicações que exigem compacidade, como aquecedores portáteis em acampamentos ou sistemas de apoio a edifícios isolados da rede elétrica. O calor libertado pode ainda alimentar ciclos termodinâmicos indiretos, convertendo-se em eletricidade por meio de turbinas a vapor ou motores Stirling. Embora o rendimento global dependa da eficiência do conversor térmico, a fonte não envolve metais críticos nem eletrodos complexos, dificultando menos a produção em larga escala.

Integrável a baterias de fluxo

Outra vantagem reside na possibilidade de operar o composto em sistemas de fluxo. Em vez de placas fixas, a solução de pirimidona pode circular entre dois tanques. Durante o dia, o líquido percorre coletores solares, absorve luz e fica “carregado”; à noite, desloca-se para um segundo reservatório, onde um dispositivo catalítico devolve o calor útil, fazendo a molécula regressar ao estado inicial. O fluido descarregado volta então ao primeiro tanque, fechando o ciclo sem troca de materiais sólidos.

A semelhança com baterias redox baseadas em vanádio, nas quais o eletrólito líquido transporta elétrons entre reservatórios, sugere infraestrutura conhecida e escalonável. Além disso, como a pirimidona modificada é solúvel em água, a circulação pode ocorrer em tubagens plásticas convencionais, reduzindo custos de instalação em comparação com ligas metálicas resistentes à corrosão exigidas por alguns eletrólitos.

Estabilidade e reutilização prolongada

A equipa sublinha que o composto retém a “carga solar” durante anos, característica confirmada por ensaios de envelhecimento acelerado que não apontaram perda significativa de capacidade. Essa estabilidade deriva de duas propriedades químicas. Primeiro, a reação de torção fotoinduzida consome apenas energia de luz e não origina subprodutos; logo, o material não se degrada por oxidação ou hidrólise. Segundo, o estado excitado permanece energeticamente isolado a temperaturas ambientes normais, evitando libertação indesejada de calor.

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Imagem: Tecnologia e Inovação

Do ponto de vista ambiental, o ciclo fechado reduz descartes. Não há necessidade de extrair grandes quantidades de lítio, cobalto ou níquel, nem tratamento complexo de fim de vida. Caso a solução se contamine, a própria molécula pode ser recuperada por processos de filtração ou recristalização, segundo os autores.

Possíveis cenários de utilização

Entre as aplicações citadas, destaca-se o aquecimento doméstico de água. Coletores instalados no telhado carregariam o fluido durante o dia, permitindo fornecimento estável à noite ou em períodos nublados. Campistas e expedições em regiões remotas poderiam levar pequenos reservatórios pressurizados para preparar refeições ou aquecer abrigos sem combustíveis fósseis. Em escala superior, usinas solares térmicas poderiam substituir sais fundidos por pirimidona circulante, reduzindo temperaturas de operação e problemas de corrosão em equipamentos metálicos.

O formato líquido também facilita integração a trocadores de calor compactos. Ao contrário de baterias sólidas, cujo calor interno só sai por condução, a solução aquecida flui diretamente até o ponto de consumo. Isso elimina camadas de isolamento pesado e permite projetos modulares de capacidade variável, ajustáveis a necessidades sazonais.

Próximos passos apontados pelos investigadores

Embora o trabalho demonstre viabilidade em bancada, os investigadores reconhecem a necessidade de otimizar escalabilidade e custo. A síntese da pirimidona modificada envolve etapas orgânicas que, segundo a equipa, podem ser adaptadas a processos industriais já usados na produção de fármacos, mas exigem ajustes para volumes de centenas de litros. Também será preciso caracterizar cuidadosamente a compatibilidade do fluido com materiais de tubulação e vedação, bem como validar a durabilidade em ciclos diários ao longo de décadas.

Outro ponto em avaliação é a velocidade da reação de descarga. O calor se liberta a partir de um gatilho térmico ou catalítico, o que permite controle, mas demanda engenharia de sistemas para garantir potência adequada. Estudos adicionais pretendem identificar catalisadores capazes de acelerar a libertação de energia sem custos elevados e sem contaminar o fluido.

Mesmo com esses desafios, os resultados iniciais consolidam a pirimidona sintética como candidata a complementar, e não necessariamente substituir, baterias eletroquímicas convencionais. Ao oferecer maior densidade por massa e independência de metais críticos, o novo material amplia o leque de ferramentas para armazenar energia renovável, sobretudo em contextos onde calor é a forma de uso final.

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