A Meta investe somas consideráveis na sua divisão de pesquisa em inteligência artificial, mas ainda enfrenta dificuldades para reter especialistas cobiçados pelo mercado. Mesmo após oferecer remunerações milionárias, alguns dos profissionais contratados nas últimas semanas optaram por regressar à OpenAI, principal concorrente no setor.
Contratações rápidas, desistências ainda mais velozes
Nos últimos meses, a equipa da Meta Superintelligence Labs (MSL) atraiu perfis de alto nível vindos da própria OpenAI e de empresas como a Apple. O objetivo declarado de Mark Zuckerberg é acelerar o desenvolvimento de modelos avançados de IA, área que recebe investimentos bilionários dentro do grupo que controla Facebook, Instagram e WhatsApp.
Entre os nomes recém-chegados estavam os engenheiros Avi Verma e Ethan Knight, ex-OpenAI. Cada um permaneceu menos de 30 dias na Meta antes de solicitar o regresso ao antigo empregador, segundo apurou a revista Wired. Caso semelhante é o de Chaya Nayak, pesquisadora veterana da Meta que decidiu migrar para a OpenAI após vários anos na companhia de Menlo Park.
As partidas expõem um cenário de rotação acelerada de talentos em laboratórios de inteligência artificial. Embora as propostas salariais sejam elevadas — em alguns casos ultrapassam sete dígitos em dólares por ano — fatores como missão de trabalho, cultura interna e oportunidades de pesquisa parecem pesar mais na decisão dos especialistas.
Disputa vai além do salário
A CEO da AMD, Lisa Su, comentou o tema à Wired. Segundo a executiva, oferecer bons salários é obrigação, mas não suficiente para garantir o engajamento.
“Embora o dinheiro seja importante, não é a coisa mais importante quando se busca atrair talentos. É essencial estar competitivo nesse aspecto, mas também oferecer uma missão que inspire e motive as pessoas”, afirmou Su.
A avaliação ecoa relatos de ex-funcionários da Meta, que citam a possibilidade de trabalhar em projetos com impacto direto e rápido como um diferencial da OpenAI. A startup de Sam Altman ganhou visibilidade global com o ChatGPT, e muitos pesquisadores enxergam ali maior autonomia para publicar estudos e lançar soluções comerciais com rapidez.
Fontes próximas às negociações sugerem que a OpenAI contra-atacou com pacotes de ações mais agressivos, mas nenhum dos envolvidos confirmou valores. De todo modo, a facilidade com que a empresa reverteu contratações já anunciadas evidencia a vantagem competitiva que consolidou no mercado de IA generativa.
Meta recorre também à política
Além da corrida por especialistas, a Meta intensifica a atuação nos bastidores de Washington e Sacramento. A empresa planeia apoiar candidatos na Califórnia favoráveis a uma regulamentação mais flexível para a inteligência artificial. O movimento visa criar um ambiente jurídico menos restritivo às pesquisas conduzidas pelo grupo, que já aplicou bilhões de dólares em infraestrutura de data centers e chips dedicados.

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Analistas veem a estratégia como tentativa de equilibrar a recente onda regulatória que se consolida nos Estados Unidos e na Europa. Normas mais rígidas sobre uso de dados e responsabilidade algorítmica podem elevar custos e atrasar lançamentos, o que pressiona companhias a influenciar o debate legislativo.
Mercado global em expansão
Enquanto a Meta ajusta seu quadro de pessoal, a OpenAI anunciou a abertura de um escritório em São Paulo. O Brasil figura entre os três maiores mercados do ChatGPT, com cerca de 50 milhões de utilizadores e 140 milhões de mensagens trocadas diariamente. A nova base deve acolher treinamentos, eventos e iniciativas de parcerias locais.
A decisão reforça a estratégia da OpenAI de ampliar presença fora dos Estados Unidos para aproveitar polos de talento regionais. Além de São Paulo, a empresa avalia centros na Europa e na Ásia, sinalizando que a disputa por engenheiros e cientistas de dados será cada vez mais global.
Desafios para manter a liderança
A Meta não sinalizou mudanças na política de contratações, mas fontes internas admitem a necessidade de revisar processos de integração e cultura organizacional. A meta — sem trocadilhos — é reduzir o índice de desistência nas primeiras semanas de trabalho, etapa em que a concorrência aparenta ter maior influência.
Para especialistas em recursos humanos, programas de mentoria, clareza de objetivos de pesquisa e participação em publicações científicas podem fortalecer o vínculo de recém-contratados. Ainda assim, a volatilidade deve persistir enquanto o setor de IA mantiver ritmo de investimentos recorde.
No curto prazo, tanto Meta quanto OpenAI continuarão a disputar o mesmo grupo restrito de engenheiros graduados em machine learning, matemática e ciência de dados. Com pacotes salariais já elevados, a diferenciação tende a ocorrer em fatores intangíveis, como propósito, reconhecimento acadêmico e autonomia para inovar.
Esse quadro indica que salários milionários, embora chamativos, não resolvem a equação de retenção. A experiência recente da Meta demonstra que, na fronteira da inteligência artificial, a motivação dos profissionais pode valer mais do que qualquer cifra.