Mark Zuckerberg e a esposa, Priscilla Chan, foram vistos na primeira fila do desfile Prada Outono/Inverno 2026, em Milão, na última quinta-feira. A presença do presidente-executivo da Meta e a conversa informal com Lorenzo Bertelli, diretor-geral de merchandising da grife e filho da estilista Miuccia Prada, intensificaram especulações sobre o lançamento de uma versão Prada dos óculos de inteligência artificial (IA) da empresa norte-americana.
Aparição pública reforça indícios de colaboração
O rumor não surgiu apenas com o evento na capital da moda. No verão passado, a CNBC informou que um modelo de óculos Prada com recursos de IA estaria em desenvolvimento, embora nenhuma das companhias tenha oficializado a negociação. Questionada sobre a viagem de Zuckerberg a Milão, a Meta manteve silêncio. À margem do desfile, nenhuma das partes sinalizou planos concretos, mas a sequência de indícios tem alimentado expectativas no mercado de tecnologia vestível.
Historicamente, a Meta já utiliza parcerias no segmento de eyewear para acelerar a adoção de dispositivos inteligentes. Desde 2021, a francesa-italiana EssilorLuxottica — responsável por marcas como Ray-Ban e Oakley — fabrica modelos que incorporam câmeras, microfones e assistente de voz integrados ao ecossistema da big tech. O primeiro produto, batizado Ray-Ban Stories, abriu caminho para versões atualizadas, agora comercializadas como Ray-Ban Meta.
Números de vendas impulsionam estratégia de expansão
A EssilorLuxottica anunciou, neste mês, que as vendas de óculos com IA ultrapassaram 7 milhões de unidades em 2025, contra 2 milhões no ano anterior. O salto de 250% inclui tanto a linha Ray-Ban Meta quanto os modelos Oakley Meta, estes últimos voltados a públicos esportivos. Os resultados fortaleceram a posição da Meta no segmento e demonstraram o potencial comercial do formato.
Com a possível adesão da Prada, a fabricante pretende alcançar um nicho ainda inexplorado: o mercado de luxo. O movimento faz sentido devido à renovação do contrato de licenciamento entre Prada e EssilorLuxottica para produção de armações das marcas Prada e Miu Miu. O acordo, que venceria em 31 de dezembro de 2025, foi prorrogado até 31 de dezembro de 2030, com opção de extensão até 31 de dezembro de 2035. Assim, há margem contratual para incluir versões inteligentes sob a mesma licença.
Uma edição de óculos Prada com recursos de realidade aumentada e assistente de IA atrairia consumidores dispostos a pagar valores acima da média dos atuais Ray-Ban ou Oakley, ampliando margens de receita. Em contrapartida, a Meta obteria maior visibilidade em ambientes de alta costura, onde produtos eletrônicos raramente ganham espaço.
Mercado de luxo pode elevar percepção da marca
Para a Meta, infiltrar-se no universo premium ajuda a diversificar a imagem corporativa, antes atrelada a redes sociais e publicidade digital. No campo da moda, a associação a uma grife centenária como a Prada confere legitimidade estética aos dispositivos tecnológicos e abre portas para colaborações futuras com outras casas de moda.
Especialistas em varejo apontam que consumidores de artigos de luxo buscam diferenciação e exclusividade, fatores que podem sustentar preços mais altos e produção limitada. Caso a Meta confirme o projeto, é provável que o design seja personalizado para se alinhar às coleções sazonais da Prada, reproduzindo a lógica de lançamentos semestrais típica do setor fashion.
Preocupações com privacidade ganham destaque
O avanço dos óculos inteligentes, contudo, enfrenta resistência crescente. Debates sobre vigilância privada levaram parte dos consumidores a remover câmeras domésticas e campainhas inteligentes. Nesse contexto, qualquer produto que capture imagens ou sons em espaços públicos desperta questionamentos sobre consentimento e coleta de dados.
Reportagem recente do The New York Times revelou que a Meta estuda limitar — ou até omitir — funções de reconhecimento facial nos óculos para evitar críticas. Enquanto a decisão não é final, desenvolvedores independentes já criam soluções para identificar indivíduos que utilizam o acessório em locais movimentados. Um exemplo é um aplicativo que emite alerta sempre que detecta alguém usando os óculos com IA nas proximidades, reforçando a percepção de risco à privacidade.
Imagem: ilustrativa
Organizações civis também cobram transparência sobre a gestão das informações capturadas pelos dispositivos. A legislação europeia é rigorosa com dados biométricos, o que pode exigir versões específicas para a União Europeia caso os óculos incluam funcionalidades de identificação automática.
Alinhamento industrial sustenta cronograma de produção
Se a colaboração avançar, a infraestrutura de produção encontra-se praticamente montada. A EssilorLuxottica possui fábricas e centros de distribuição que já atendem a Ray-Ban e Oakley, podendo adaptar linhas de montagem para acomodar o design Prada. Além disso, a integração entre hardware e software da Meta segue modelo semelhante ao dos produtos existentes, acelerando a fase de testes.
Fatores logísticos, como fornecimento de baterias e sensores, permanecem sob pressão de cadeias globais, mas a escala atual sugere que o consórcio Meta-EssilorLuxottica tem capacidade para sustentar novos lotes sem grandes atrasos. Uma parceria com a Prada incluiria ainda a distribuição em boutiques próprias e pontos de venda selecionados, diversificando canais fora do varejo tecnológico tradicional.
Próximos passos e cronograma provável
Até o momento, nem Meta nem Prada divulgaram prazos ou características técnicas. Contudo, a agenda da moda segue ciclos rígidos, e a presença de Zuckerberg no desfile de Milão indica possível anúncio no período entre as coleções Primavera/Verão 2027. Caso o projeto esteja no estágio avançado de prototipagem, a apresentação oficial poderia ocorrer em setembro de 2026, durante a temporada de desfiles referente a esse mesmo período.
Enquanto isso, analistas acompanham movimentações de registro de patentes e certificações regulatórias, que costumam anteceder lançamentos de hardware. A eventual homologação de componentes sem fio em órgãos como a FCC, nos Estados Unidos, ou a CE, na Europa, servirá de sinal externo sobre proximidade do lançamento.
No cenário atual, a Meta consolida-se como referência em óculos inteligentes ao combinar sua plataforma de IA com marcas de apelo diferente: Ray-Ban, de cultura pop; Oakley, focada em desempenho; e, possivelmente, Prada, direcionada ao luxo. A estratégia multiplica pontos de contato com públicos variados e aumenta a resiliência comercial diante de tendências de consumo em constante mudança.
Embora subsistam incertezas sobre funcionalidades específicas e políticas de privacidade, o conjunto de indícios sugere que a entrada da Prada no portfólio de wearables da Meta é questão de tempo. Se confirmada, a união entre tecnologia e alta-costura poderá redefinir a percepção do consumidor sobre óculos de IA, posicionando o acessório tanto como peça de estilo quanto como ferramenta digital integrada ao cotidiano.






