ONU apresenta estratégia para que IA gere empregos sem violar direitos humanos

Educação e Tecnologia

A Organização das Nações Unidas (ONU) intensificou os esforços para limitar os riscos associados à inteligência artificial (IA) e ampliar os seus benefícios económicos e sociais. Documentos recentes, debates no Conselho de Segurança e diretrizes publicadas por agências especializadas definem uma agenda que inclui governança ética, proteção de direitos fundamentais, qualificação profissional e redução das desigualdades de acesso à tecnologia.

Governança global assenta em direitos humanos

Em 2024, o secretário-geral António Guterres advertiu que “o destino da humanidade não deve ficar nas mãos da caixa-preta de um algoritmo”, reforçando a necessidade de supervisão humana sobre sistemas automatizados. O pronunciamento serviu de base para o Pacto Digital Global, aprovado em setembro de 2024, que orienta a construção de um quadro regulatório internacional para a IA.

A UNESCO já havia publicado, em 2021, a Recomendação sobre a Ética da Inteligência Artificial. O texto exige que governos restringem ou proíbam aplicações que representem ameaça à dignidade, à igualdade ou à liberdade. Além disso, impõe a obrigatoriedade de avaliações de impacto e de mecanismos de prestação de contas para desenvolvedores e utilizadores de algoritmos.

Paralelamente, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que cerca de 25% das ocupações poderão ser transformadas pela automação inteligente. Os especialistas sublinham, contudo, que transformação não implica perda líquida de postos, desde que existam políticas de transição, formação contínua e regulação eficaz.

Formação de professores e requalificação permanente

A educação aparece como eixo central da estratégia. Segundo Shafika Isaacs, diretora para tecnologia e IA na educação da UNESCO, o sistema escolar mundial precisará contratar 44 milhões de docentes adicionais até 2030. A especialista argumenta que ampliar o corpo docente é mais urgente do que alocar recursos exclusivamente em ferramentas de IA, porque “a aprendizagem continua sendo uma experiência social, humana e cultural”.

O Fórum Económico Mundial projeta que 41% dos empregadores planeiam reduzir quadros até 2025 em razão da automação. Ao mesmo tempo, surgirão funções que combinam criatividade, julgamento ético e interação interpessoal — capacidades nas quais os seres humanos mantêm vantagem comparativa. Por esse motivo, a ONU defende programas de capacitação que promovam aprendizagem ao longo da vida, preparando trabalhadores para transitar entre tarefas e setores em rápida evolução.

Reduzir desigualdades de acesso e apoiar a África

A concentração de pesquisa e infraestrutura de IA em um número restrito de multinacionais tecnológicas é outra preocupação. A ONU alerta que o domínio dessas empresas pode aprofundar disparidades entre países e dentro das próprias sociedades. Para evitar esse cenário, o organismo recomenda políticas que ampliem conectividade, fomentem centros de dados regionais e estimulem inovação aberta.

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Imagem: ilustrativa

O caso africano ilustra o desafio. Apesar de abrigar 18% da população mundial, o continente detém menos de 1% da capacidade global de data centers, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Sem investimentos em infraestrutura e competências locais, a região corre o risco de se limitar a consumir sistemas criados noutras partes do mundo, sem adaptá-los às suas realidades linguísticas e culturais.

A Comissão Económica da ONU para África (ECA) defende que a IA pode acelerar o desenvolvimento em áreas como agricultura, saúde, monitorização climática e serviços públicos. Exemplos já em operação incluem plataformas de machine learning que antecipam secas no Corno de África e aplicações que fortalecem a vigilância de doenças infecciosas. Para expandir esses casos de uso, a ECA recomenda investir em dados locais, pesquisa universitária e modelos multilíngues.

Cooperação internacional e próximos passos

A ONU propõe a criação de fóruns permanentes de diálogo envolvendo governos, setor privado, academia e sociedade civil. Esses espaços devem alinhar normas técnicas, compartilhar boas práticas regulatórias e mobilizar financiamento para educação e desenvolvimento de força de trabalho. Entre as medidas em estudo estão:

  • Plataformas de coordenação para integrar iniciativas nacionais de IA;
  • Parcerias público-privadas voltadas à formação de competências digitais;
  • Mecanismos de auditoria independentes para garantir transparência algorítmica;
  • Fundos de apoio a projetos que usem IA em benefício de populações vulneráveis.

Ao articular governança ética, proteção de direitos e qualificação profissional, a ONU pretende transformar a inteligência artificial num motor de crescimento inclusivo, evitando que a automação aprofunde desigualdades ou comprometa liberdades fundamentais.

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