ONU propõe fundo de US$ 3 bilhões para democratizar a Inteligência Artificial

Educação e Tecnologia

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, defendeu nesta quinta-feira, em Nova Délhi, a criação de um Fundo Global de US$ 3 bilhões para ampliar o acesso de países em desenvolvimento à Inteligência Artificial (IA). O apelo foi feito durante a Cúpula de Impacto da IA, encontro que integra a India AI Impact Expo 2026, inaugurada pelo primeiro-ministro Narendra Modi no centro de convenções Bharat Mandapam.

Fundo global mira inclusão tecnológica

Guterres argumentou que o mercado de IA não pode ser guiado exclusivamente por “um punhado de países” ou pelos interesses de “alguns bilionários”. Segundo ele, o valor pretendido equivale a menos de 1 % da receita anual de uma única grande empresa do setor, quantia que classificou como “pequeno preço” para garantir benefícios universais. O objetivo é financiar capacitação profissional, infraestrutura de computação e criação de ecossistemas que permitam a adoção responsável da tecnologia em nações com menor poder económico.

Sem o investimento inicial, alertou o chefe da ONU, numerosos países correm o risco de ficar “excluídos” da atual revolução digital. Para evitar esse cenário, o fundo atuaria em parceria com governos, setor privado e organizações da sociedade civil, distribuindo recursos a projetos que promovam acesso equitativo, segurança e transparência.

Painel científico e diálogo internacional

Durante o evento, Guterres apresentou avanços de iniciativas já em curso nas Nações Unidas. Entre elas está o Painel Científico Internacional Independente sobre IA, criado na Assembleia Geral do ano passado e formalizado na semana anterior ao encontro na Índia. O grupo reúne 40 especialistas reconhecidos internacionalmente e tem mandato para compilar evidências sobre riscos, oportunidades e impactos sociais da tecnologia. O secretário-geral convidou Estados-membros, empresas e organizações não governamentais a apoiar financeiramente e tecnicamente os trabalhos do colegiado.

Outra frente destacada foi o Diálogo Global sobre Governança da IA, cuja sessão inaugural está marcada para julho. O mecanismo pretende elaborar salvaguardas que assegurem autonomia humana, supervisão eficaz e responsabilização na concepção de sistemas inteligentes. Segundo Guterres, a cooperação multilateral é indispensável para estabelecer normas que evitem monopolização de poder ou uso abusivo de algoritmos.

Proteção de crianças e direitos laborais

O dirigente das Nações Unidas enfatizou a necessidade de defender usuários contra exploração, manipulação e abuso. “Nenhuma criança deve servir de cobaia em testes de IA não regulamentada”, afirmou, referindo-se à exposição de menores a ambientes digitais potencialmente nocivos. Entre as recomendações, consta o reforço de políticas de privacidade, verificação de idade e monitorização de conteúdo dirigido a públicos infantis.

No campo laboral, Guterres sustentou que os governos devem priorizar investimento em formação profissional para que a IA “potencie o ser humano em vez de substituí-lo”. Ele salientou que ganhos de produtividade precisam ser acompanhados de programas que garantam transição justa, proteção social e requalificação de trabalhadores em setores suscetíveis à automação.

Desafios ambientais ligados à IA

A intervenção também abordou o impacto climático decorrente do crescimento acelerado de datacenters e cadeias de fornecimento associadas à IA. Com o consumo de energia e água em trajetória ascendente, o secretário-geral pediu a migração destas infraestruturas para fontes renováveis. Para ele, a adoção de energia limpa deve acompanhar qualquer expansão de capacidade de processamento, sob pena de agravar as emissões de gases de efeito estufa e a pressão sobre recursos hídricos.

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Imagem: ilustrativa

Potencial para acelerar os ODS

Apesar dos alertas, Guterres reiterou que, quando regulamentada de forma inclusiva, a Inteligência Artificial pode contribuir decisivamente para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Entre as áreas citadas estão avanços em descobertas médicas, expansão de oportunidades educacionais, fortalecimento da segurança alimentar, intensificação da ação climática e melhoria na resposta a desastres naturais.

Contudo, advertiu que os mesmos sistemas que ampliam a inovação também podem aprofundar disparidades, replicar preconceitos e causar danos se operados sem supervisão robusta. Daí a urgência, segundo ele, de regras que distribuam benefícios e mitiguem riscos, especialmente em comunidades historicamente marginalizadas.

Reações e próximos passos

Representantes de governos, empresas de tecnologia e ONGs presentes à cúpula receberam a proposta com interesse, mas detalhes sobre compromissos financeiros ainda não foram divulgados publicamente. O tema deverá voltar à pauta durante a primeira sessão do Diálogo Global em julho, quando se espera a definição de metas de curto e médio prazos para capitalização do fundo.

Até lá, a ONU pretende intensificar consultas com Estados-membros para delinear critérios de elegibilidade, formas de governança e mecanismos de transparência na aplicação dos recursos. A expectativa é que o fundo opere de maneira semelhante a iniciativas multilaterais já existentes nos domínios da saúde e do clima, com avaliações periódicas de impacto e participação de diversos atores sociais.

Ao concluir a intervenção, Guterres sublinhou que “o impacto real” da IA só será alcançado se a tecnologia se tornar acessível e segura para todas as populações, “de modo a melhorar vidas e proteger o planeta”. De acordo com o dirigente, essa meta depende tanto da mobilização de capital quanto da construção de consensos internacionais capazes de equilibrar inovação, direitos humanos e sustentabilidade.

O debate em Nova Délhi reforça a percepção de que a governança global da Inteligência Artificial avançou para o centro das agendas diplomáticas, económicas e científicas. A proposta dos US$ 3 bilhões insere-se nesse contexto, almejando evitar a concentração de poder tecnológico e assegurar que a revolução digital beneficie sociedades de forma ampla e equitativa.

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