A Organização das Nações Unidas (ONU) lançou uma iniciativa voltada a enfrentar o impacto da inteligência artificial (IA) sobre a economia criativa, após estimar que o setor pode perder até 24 % das receitas globais em consequência das novas tecnologias. A medida inclui a formação de um painel de especialistas e a abertura de um Diálogo Global destinado a definir parâmetros de regulação, qualificação profissional e distribuição de recursos.
Indústria criativa sob pressão tecnológica
De acordo com a liderança da ONU, a possível redução de quase um quarto do faturamento mundial do segmento criativo decorre da rápida adoção de sistemas de IA em atividades como produção de conteúdo, design e entretenimento. Esse cenário, segundo o organismo internacional, coloca em risco cadeias produtivas inteiras e ameaça milhões de postos de trabalho que dependem da originalidade humana.
Durante o anúncio, o dirigente lembrou que a soma necessária para mitigar esse impacto equivale a menos de 1 % da receita anual de uma única empresa de tecnologia de grande porte. O cálculo foi apresentado como argumento para demonstrar que há margem financeira no setor privado para apoiar iniciativas de capacitação, infraestrutura computacional e desenvolvimento de ecossistemas inclusivos.
A ONU destaca que a erosão de receitas pode desencadear efeitos em cascata na economia de países que dependem fortemente de exportações culturais, serviços audiovisuais e propriedade intelectual. Sem a adoção de políticas públicas e privadas coordenadas, o avanço algorítmico tende a concentrar resultados em plataformas detentoras de modelos de linguagem e de geração de conteúdo, agravando desigualdades entre mercados centrais e periféricos.
O organismo argumenta ainda que, além das perdas financeiras, há risco de enfraquecimento da diversidade cultural. Conteúdos gerados por sistemas treinados em grandes volumes de dados tendem a reproduzir padrões dominantes, o que pode reduzir a visibilidade de narrativas regionais e de grupos historicamente sub-representados.
Painel de especialistas e Diálogo Global
Para enfrentar essas ameaças, a ONU instituiu um painel composto por especialistas em tecnologia, direitos humanos, legislação e mercado criativo. O grupo deverá elaborar recomendações sobre modelos de governança, padrões de transparência e mecanismos de financiamento que garantam competitividade às economias criativas diante de ferramentas baseadas em IA.
Entre as prioridades definidas estão:
• Desenvolvimento de competências: programas de formação técnica e artística que preparem profissionais para trabalhar com sistemas de IA de forma complementar, em vez de substitutiva.
• Poder computacional acessível: expansão da infraestrutura de processamento e armazenamento, sobretudo em nações com menor capacidade de investimento, permitindo que atores locais treinem e implementem modelos próprios.
• Ecossistemas inclusivos: incentivos para que startups, universidades e organizações culturais colaborem na criação de soluções que respeitem direitos autorais, remuneração justa e diversidade de conteúdo.
O Diálogo Global proposto funcionará como fórum permanente, reunindo governos, setor privado e sociedade civil. A expectativa é que as conclusões sirvam de base para futuras convenções internacionais ou iniciativas regionais que regulem a aplicação da IA em contextos criativos.
Soluções logísticas apresentadas na cúpula da Índia
Paralelamente às discussões sobre impacto econômico, o Programa Mundial de Alimentos (WFP, na sigla em inglês) apresentou numa cúpula realizada na Índia um conjunto de inovações destinadas a acelerar a entrega de mantimentos em situações de emergência. Entre as tecnologias demonstradas estão:
Imagem: ilustrativa
Dispensadores biométricos de grãos: dispositivos que liberam a quantidade exata de alimento após verificação da identidade do beneficiário por meio de impressão digital ou reconhecimento facial. O recurso reduz fraudes e garante distribuição equitativa.
Armazéns equipados com sensores: sistemas capazes de monitorar temperatura, umidade e nível de estoque em tempo real, permitindo ajustes imediatos para evitar perdas por deterioração.
Plataformas de mapeamento de crises: softwares que combinam dados geoespaciais e relatórios de campo para identificar áreas prioritárias, otimizar rotas e prever necessidades logísticas.
Segundo o WFP, essas ferramentas digitais encurtam prazos de resposta, baixam custos operacionais e aumentam a precisão na entrega de cestas básicas, sobretudo em regiões de difícil acesso ou sob conflito armado.
Convergência entre criatividade, segurança alimentar e IA
Embora pertençam a agendas distintas, os anúncios da ONU sobre a indústria criativa e do WFP sobre cadeias de suprimento evidenciam uma mesma preocupação: o uso responsável da inteligência artificial para evitar perdas econômicas e humanitárias. No caso do setor cultural, a meta é preservar receitas, postos de trabalho e diversidade de conteúdo; já na área de assistência alimentar, o objetivo reside em salvar vidas por meio de processos mais rápidos e precisos.
Ambas as iniciativas ressaltam a importância de alianças que unam governos, academia e iniciativa privada. No cenário criativo, essas parcerias são vistas como chave para garantir remuneração adequada a autores e produtores em um mercado cada vez mais dominado por algoritmos capazes de gerar textos, imagens e música. No campo humanitário, a colaboração viabiliza investimentos em infraestrutura tecnológica e coleta de dados, etapas essenciais para prevenir desperdícios e ampliar a cobertura de programas de alimentação.
Próximos passos definidos pela ONU
Com a instalação do painel de especialistas, a ONU pretende apresentar um primeiro relatório de recomendações nos próximos meses. O documento deverá contemplar propostas de financiamento, normas de transparência na utilização de bases de dados e diretrizes de proteção a direitos autorais. Também estão previstos estudos de impacto específicos para segmentos como cinema, jogos eletrónicos, música e publicidade.
O Diálogo Global, por sua vez, funcionará em ciclos de consulta pública, recebendo contribuições de empresas, organizações culturais e Estados-membros. A intenção é consolidar um arcabouço regulatório flexível, capaz de acompanhar a velocidade das inovações sem sufocar experimentação ou limitar potenciais avanços.
No campo da segurança alimentar, o WFP planeia ampliar a adoção dos dispensadores biométricos, sensores de armazenagem e plataformas de mapeamento em operações na África e na América Latina. A agência estuda ainda parcerias com provedores de nuvem para garantir a escalabilidade das aplicações, além de treinamento local de equipes responsáveis pela manutenção das soluções.
Os anúncios refletem o reconhecimento, por parte do sistema multilateral, de que a inteligência artificial pode gerar oportunidades e ameaças simultâneas. Uma combinação de regulação, investimento e cooperação internacional surge, assim, como estratégia central para assegurar que os benefícios das novas tecnologias sejam distribuídos de forma equitativa e sem comprometer setores economicamente sensíveis ou populações em situação de vulnerabilidade.






