ONU reforça inclusão do Sul Global na governança da inteligência artificial

Educação e Tecnologia

A Organização das Nações Unidas voltou a salientar a necessidade de envolver países em desenvolvimento nas decisões sobre inteligência artificial (IA). O posicionamento foi apresentado pelo subsecretário-geral e enviado especial para Tecnologias Digitais e Emergentes, Amandeep Singh Gill, durante a AI Impact Summit, que decorre em Nova Délhi até sexta-feira.

Evento em Nova Délhi amplia voz do Sul Global

A AI Impact Summit é apontada pela ONU como um dos primeiros encontros de grande porte sobre IA realizados no Sul Global. Reúne representantes de governos, empresas e organismos internacionais, com a presença confirmada do secretário-geral António Guterres. O objetivo central do fórum é debater formas de aproveitar oportunidades tecnológicas e ao mesmo tempo limitar riscos, assegurando que a governança global inclua todos os Estados-membros.

Gill classificou a iniciativa indiana como parte de uma sequência de diálogos internacionais que começou com a cimeira de segurança de IA no Reino Unido, em 2023, e terá continuidade com a cimeira sobre ação em tecnologia prevista para 2025, em França. Segundo o enviado, esses encontros convergem para um debate coletivo que pretende evitar a exclusão tecnológica de países menos desenvolvidos.

Fundo de até US$ 3 bilhões para capacitação

Uma das propostas em discussão é a criação de um fundo global de IA, anunciado por Guterres em relatório recente. O mecanismo, que poderá reunir até US$ 3 bilhões em contribuições voluntárias, pretende financiar projetos em 80 a 90 nações consideradas mais vulneráveis ao risco de exclusão digital. Os recursos seriam utilizados para desenvolver talento local, construir conjuntos de dados e compartilhar capacidade computacional.

A iniciativa prevê ainda a formação de uma rede internacional de centros de capacitação. Esses polos forneceriam treinamento técnico, apoio em desenvolvimento de soluções e facilidades para acesso a infraestrutura de IA. A proposta, segundo Gill, busca permitir que cada região adapte a tecnologia às próprias necessidades, com aplicações em áreas como agricultura, educação e saúde.

Inclusão feminina e combate à desinformação

Outro ponto destacado pelo representante da ONU é a sub-representação de mulheres no setor de inteligência artificial. De acordo com Gill, a disparidade pode ser observada na pesquisa académica, no financiamento de startups e nos quadros de empresas tecnológicas. Apesar do cenário, o enviado reconheceu avanços recentes, mencionando projetos liderados por mulheres em segurança de modelos, diversidade linguística e iniciativas de código aberto.

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Imagem: ilustrativa

Gill também alertou para riscos de desinformação, manipulação digital e impactos sobre democracias. O tema foi incorporado ao Pacto Digital Global aprovado na Cimeira do Futuro de 2024, documento que recomenda alinhar respostas a direitos humanos e garantir acesso a informação livre de interferências. A ONU, segundo o enviado, pode atuar como mediadora entre diferentes abordagens regulatórias, evitando fragmentação e promovendo parâmetros comuns.

Modelos menores e adaptação local

Na avaliação do subsecretário-geral, modelos de linguagem de pequena escala têm potencial para enfrentar desafios ligados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Por consumirem menos energia e exigirem menos dados, essas soluções seriam mais fáceis de integrar em contextos regionais. Exemplos apresentados na AI Impact Summit incluem aplicações voltadas para agricultores de pequena escala e sistemas de apoio a docentes em zonas rurais.

Próximos passos na governança global

As Nações Unidas agendaram para julho o primeiro diálogo global específico sobre governança de IA. A reunião deverá reunir Estados-membros, setor privado, academia e sociedade civil para discutir normas mínimas de segurança, transparência e responsabilidade. Gill reforçou que a ONU mantém legitimidade para liderar o processo por contar com participação universal e um corpo consolidado de direito internacional que abrange direitos humanos, direito humanitário e compromissos ambientais.

Para os próximos cinco anos, o enviado especial espera ver mais países equipados com infraestrutura digital, dados locais e profissionais capacitados para desenvolver ou adaptar sistemas de IA. Ele alertou que a falta de cooperação pode resultar em regulações fragmentadas, o que dificultaria a partilha de conhecimento e aumentaria desigualdades tecnológicas. A meta, concluiu, é alinhar a evolução da inteligência artificial às prioridades multilaterais, como desenvolvimento sustentável, promoção da paz e proteção de direitos fundamentais.

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