Uma investigação federal identificou um serviço de IPTV ilegal que arrecadava cerca de R$ 1,8 milhão mensais em apenas um estado brasileiro. A descoberta integrou a oitava fase da Operação 404, conduzida em 27 de novembro, dois dias antes da final da Copa Libertadores entre Palmeiras e Flamengo. A ofensiva, coordenada pelo Laboratório de Cibernética (Ciberlab) do Ministério da Justiça, resultou na apreensão de bens de luxo e na interrupção de transmissões piratas que deixaram assinantes sem acesso ao jogo.
Rede ilegal movimenta milhões e afeta espectadores
De acordo com Paulo Benelli, delegado e responsável pelo Ciberlab, a estrutura desmantelada operava como uma empresa formal. O grupo mantinha servidores no exterior, oferecia TV Box não homologadas, comercializava planos de IPTV via redes sociais e aceitava diferentes formas de pagamento, incluindo cartão de crédito parcelado. Embora atraísse consumidores em busca de preços mais baixos, o serviço apresentava riscos de instabilidade: quando os servidores foram tirados do ar pela polícia, quem havia pago pelo sinal ficou sem qualquer suporte ou ressarcimento, incluindo torcedores que pretendiam assistir à decisão continental.
Benelli destacou que a pirataria de TV paga deixou de ser um simples “gato” nos postes para se tornar um negócio global altamente lucrativo. Em uma das ações recentes, investigadores descobriram patrimônio incompatível com a renda declarada dos envolvidos, incluindo carros de luxo e imóveis em condomínios de alto padrão. Todos os bens suspeitos foram bloqueados ou apreendidos.
Estrutura empresarial e riscos ao consumidor
Os responsáveis pelos serviços clandestinos implementaram setores específicos para atendimento ao cliente, marketing e cobrança. Mesmo com essa fachada de empresa convencional, reclamações sobre falhas no suporte eram comuns. Segundo o coordenador do Ciberlab, o modelo expõe usuários a múltiplos perigos: vazamento de dados pessoais, golpes financeiros e possibilidade de invasão à rede doméstica a partir dos aparelhos TV Box adulterados.
O delegado refuta a premissa de que a pirataria seria motivada apenas pela falta de recursos. Estudos citados por Benelli indicam que parte significativa dos consumidores de conteúdo ilegal pertence às classes B e C, grupos com capacidade financeira para pagar serviços legítimos de streaming. “Não se trata de R$ 10 economizados; é uma cadeia criminosa que causa prejuízos a toda a indústria audiovisual”, afirmou.
Modelo brasileiro vira referência internacional
O sucesso operacional da Operação 404 colocou o Brasil no radar de agências internacionais, entre elas o FBI, interessado em replicar métodos de investigação e cooperação. Delegações do Reino Unido, Argentina e Paraguai também participam de encontros regulares para alinhar estratégias contra a pirataria digital.
No caso mais recente, informações coletadas pelo Ciberlab foram cruciais para autoridades argentinas desarticularem o serviço ilícito My Family, responsável por distribuir sinal pirata em vários países da região. Para Benelli, a troca de dados entre forças de segurança é fundamental para combater servidores hospedados fora do território nacional.
Imagem: Tecnologia Inovação Notícias
Ação rápida evita ataques e amplia escopo do Ciberlab
Além da pirataria, o laboratório atua no monitoramento de crimes de ódio e ameaças contra grandes eventos. Um dos episódios citados pelo delegado envolve a operação Fake Monster, que impediu um atentado durante um show da cantora Lady Gaga em Copacabana, em 2025. O Ciberlab recebeu informações sobre jovens que pretendiam lançar coquetéis molotov no local e repassou o alerta à Polícia Civil do Rio de Janeiro, resultando em prisões antes da concretização do plano.
Impacto econômico e social da pirataria
Os prejuízos gerados pelas transmissões clandestinas afetam toda a cadeia de produção audiovisual: produtoras, artistas, técnicos e distribuidores deixam de receber direitos autorais. A federação que representa o setor estima perdas anuais de bilhões de reais. O combate à prática, segundo Benelli, envolve não apenas operações policiais, mas também campanhas de conscientização sobre os riscos de adquirir serviços não autorizados.
Enquanto novas fases da Operação 404 são planejadas, o Ciberlab mantém parcerias com plataformas de streaming, operadoras de TV paga e órgãos reguladores para mapear servidores irregulares e bloquear domínios rapidamente. A meta é reduzir o alcance das redes de gatonet e proteger consumidores de fraudes recorrentes.
Com a apreensão de equipamentos e a suspensão das principais fontes de receita, investigadores acreditam que o grupo desmantelado não conseguirá retomar as atividades no curto prazo. Entretanto, autoridades alertam que outros serviços semelhantes podem surgir, exigindo vigilância constante e cooperação internacional para conter a expansão do mercado ilegal de IPTV.





