Pesquisadores da Universidade de Illinois criaram novos guias de onda eletromagnéticos baseados em princípios de origami, propondo uma alternativa leve e compacta aos tubos metálicos rígidos tradicionalmente utilizados em satélites.
Por que adaptar o origami a componentes espaciais?
Em órbita, cada grama conta. Equipamentos de telecomunicação embarcados em satélites recorrem a guias de onda — tubos retangulares de metal com flanges robustas — para transportar energia de micro-ondas entre antenas, amplificadores e outros módulos. Embora confiáveis, essas estruturas são pesadas e ocupam espaço valioso durante o lançamento. A procura por soluções mais eficientes levou o doutorando Nikhil Ashok, o professor Xin Ning e a respetiva equipa a aplicar dobraduras inspiradas no origami a esse tipo de componente.
Dobrar antenas já é uma prática corrente na indústria aeroespacial, mas estender o conceito a guias de onda exige manter a geometria retangular do canal interno, crucial para não degradar o sinal. A abordagem proposta preserva esse formato quando o dispositivo está aberto e garante colapsar o volume quando fechado, economizando espaço no veículo lançador.
Da sacola de papel ao laboratório
A primeira inspiração veio de um objeto quotidiano: a sacola de papel usada em padarias. A forma retangular, capaz de ser achatada sem perder as laterais planas, sugeriu um ponto de partida. Ao unir duas seções semelhantes a sacolas, os investigadores obtiveram um tubo articulado, com entradas e saídas retangulares que encaixam nos conectores padrão. A base reta da sacola funciona como flange, dispensando peças metálicas volumosas.
Com o conceito básico validado, a equipa desenvolveu versões mais elaboradas. Uma delas lembra um fole, permitindo contrair ou estender o guia de onda de forma controlada. Outra acrescenta torção: ao ser desdobrada, a estrutura realiza um giro de 90 graus entre a entrada e a saída, útil para alinhar componentes que não estão no mesmo plano. Para determinar a distância ideal entre vincos e o ângulo correto de cada dobra, foi empregada modelagem computacional, reduzindo o número de protótipos físicos necessários.
Processo de fabrico e materiais
Nos testes iniciais, as amostras foram construídas com papel comum laminado em folha de alumínio doméstica. Embora rudimentar, o método demonstrou que a superfície condutora é suficiente para guiar micro-ondas em frequências típicas de comunicações espaciais. A etapa seguinte prevê a impressão 3D de polímeros resistentes, sobre os quais serão aplicados revestimentos metálicos ou filmes de Kapton, material já usado em missões espaciais pelas suas propriedades térmicas e dielétricas.
Além de reduzir a massa, a fabricação aditiva simplifica a produção de geometrias complexas, algo difícil de conseguir com chapas de metal convencionais. Os investigadores destacam que os parâmetros do origami podem ser ajustados para diferentes bandas de frequência, permitindo personalizar o comprimento, a largura e o raio de curvatura conforme a aplicação.
Vantagens operacionais em órbita
O ganho mais evidente é a redução de peso. Menos massa implica custos de lançamento menores ou espaço disponível para cargas úteis adicionais. Outro benefício é a possibilidade de enviar o componente dobrado e só expandi-lo após a separação do veículo lançador, poupando volume na carenagem. A flexibilidade também facilita a instalação em satélites de pequeno porte, nos quais tubos rígidos competem por espaço com baterias, tanques de propulsão e instrumentos científicos.
Segundo os autores do estudo, a abordagem origami pode ainda melhorar a tolerância a vibrações. Estruturas maleáveis absorvem parte da energia mecânica gerada durante as manobras do satélite, diminuindo o risco de fissuras. A equipa planeia submeter os protótipos a ensaios de ciclo térmico e vácuo para certificar a durabilidade em condições espaciais.
Imagem: Tecnologia & Inovação
Aplicações além do espaço
Embora o foco inicial seja a indústria aeroespacial, guias de onda dobráveis podem atender a setores navais, elétricos e de telecomunicações terrestres que exigem transferência de potência de micro-ondas. Navios, por exemplo, enfrentam limitações de espaço semelhantes às de um satélite e poderiam beneficiar-se de componentes compactos instalados em compartimentos confinados. Em redes 5G ou 6G, a capacidade de curvar ou torcer o canal sem comprometer o desempenho pode simplificar a arquitetura de torres e estações-base.
Próximos passos do projeto
A universidade está a procurar parcerias com agências espaciais e fabricantes de satélites para testar os guias de onda em ambiente real. O objetivo é integrar um modelo experimental numa missão de demonstração tecnológica nos próximos anos. Caso os testes confirmem a eficiência mecânica e eletromagnética, a tecnologia poderá migrar rapidamente para programas de constelações de órbita baixa, onde a redução de custos logísticos é essencial.
Além das validações em voo, a equipa investiga revestimentos avançados que combinem alta condutividade elétrica e resistência à radiação ultravioleta. Materiais como ligas de alumínio dopadas ou filmes multicamadas de ouro e prata estão em análise para prolongar a vida útil sem aumentar significativamente o peso.
Impacto na engenharia de satélites
Componentes dobráveis baseados em origami representam uma mudança de paradigma na integração de sistemas espaciais. Ao trocar metal espesso por estruturas leves, os projectistas obtêm liberdade para redesenhar a distribuição interna do satélite. Antenas de maior ganho, baterias extras ou sensores adicionais podem ocupar o volume libertado. Em missões científicas, essa folga estrutural traduz-se em dados mais precisos ou maior autonomia.
A modularidade é outro diferencial. Como o padrão de dobragem é definido por equações geométricas, o mesmo molde pode originar variantes com diferentes comprimentos simplesmente alterando o número de células de fole. Isso reduz custos de engenharia e acelera o ciclo de desenvolvimento de novos modelos.
Os resultados divulgados demonstram que técnicas inspiradas em arte tradicional japonesa continuam a oferecer soluções pragmáticas a desafios modernos da indústria aeroespacial. O próximo desafio é comprovar que a elegância do papel dobrado pode sustentar-se sob as condições extremas do espaço.





