Pais relatam crimes virtuais que levaram filhos a automutilação e suicídio no Brasil

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Famílias de várias regiões do país têm exposto situações em que adolescentes foram aliciados, ameaçados ou constrangidos em plataformas digitais, resultando em automutilação, distúrbios emocionais e, em casos extremos, suicídio. Os relatos revelam comportamentos que, à primeira vista, foram interpretados como “coisas da idade”, mas que escondiam uma rede de violência virtual cada vez mais sofisticada.

Sinais ignorados e crimes ocultos

Entre os testemunhos, uma mãe de Belo Horizonte descreve que manchas de sangue no lençol da filha, de 12 anos, foram o primeiro alerta. A adolescente começou a jogar no Roblox, migrou para grupos no Discord e passou a receber desafios que incluíam cortes em locais cobertos pela roupa. De acordo com a mãe, usuários anónimos ameaçavam divulgar supostas fotos íntimas caso a menina não obedecesse às ordens. O caso só veio à tona após a família conseguir acessar o telemóvel da jovem.

Em Uberlândia (MG), os pais de uma adolescente de 12 anos também viram a rotina da família mudar. Apesar de tentarem impor tempo de tela e incentivar atividades fora de casa, a menina tornou-se agressiva e retraída. Em setembro do ano passado, ela tirou a própria vida. A família não sabe se houve indução por terceiros, pois o conteúdo do telemóvel foi perdido. A mãe afirma conviver com a dúvida e o luto, reforçando a importância de investigar mudanças bruscas de comportamento.

Outro episódio envolve um adolescente de 16 anos que participava de um projeto da ONG Visão Mundial sobre segurança online. O conhecimento adquirido permitiu que ele identificasse indícios de abuso virtual na prima de 11 anos. A criança havia parado de se alimentar e vivia isolada. Mensagens encontradas no dispositivo revelaram ameaças de um homem adulto, que exigia fotografias íntimas e impunha práticas de automutilação extrema.

“O jogo saiu do controle”

No livro “Aconteceu com Minha Filha”, publicado este ano, Paulo Zsa Zsa (nome fictício) narra o episódio em que ouviu um grito no quarto da filha de 13 anos, em setembro do ano passado. Ao entrar, encontrou a jovem em surto, pedindo internação. No hospital, afirmou ter cortado a língua; exames identificaram apenas um ferimento na bochecha. Dias depois, o pai descobriu no Discord conversas referentes a um desafio que incluía desenhar uma suástica no rosto. A expressão “o jogo saiu do controle” aparecia repetidamente nas mensagens. Desde então, a família intensificou acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Hoje, a adolescente retomou a rotina escolar, pratica exercícios e mantém acompanhamento clínico regular.

Especialistas ouvidos pelas famílias indicam que mudanças como reclusão, irritabilidade ao restringir o uso do telemóvel, sono irregular e agressividade podem sinalizar envolvimento em comunidades que incentivam violência ou exploração sexual. Esses grupos, frequentemente alojados em serviços de chat ou jogos online, utilizam chantagem, ameaças e desafios progressivos para manter as vítimas sob controle.

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Imagem: Internet

Ferramentas e orientações para os responsáveis

Organizações que atuam na segurança digital recomendam uma abordagem em três frentes: diálogo, supervisão e educação. Aplicativos como Family Link, FlashGet Kids, Kidslox e Qustodio permitem limitar tempo de uso, bloquear sites e acompanhar a atividade online. A Sociedade Brasileira de Pediatria sugere estabelecer limites de tela e incentivar atividades offline que estimulem a socialização.

Cartilhas como “Navegar com Segurança” da Childhood Brasil, “Guia para Pais do Instagram” da SaferNet e o portal internetsegura.br oferecem materiais segmentados por faixa etária. Para denúncias, os canais oficiais incluem o Disque 100, que recebe queixas de violações de direitos humanos, e o Ligue 180, voltado a casos de violência contra mulheres. Delegacias de Proteção à Criança e ao Adolescente também estão habilitadas a registrar crimes virtuais.

Especialistas reforçam que a prevenção passa por manter um espaço aberto de conversa sobre riscos e benefícios da internet, assistir a conteúdos junto com os filhos, questionar a classificação etária de jogos e vídeos e, sempre que necessário, procurar ajuda profissional. Ao notar sinais de sofrimento emocional, a recomendação é buscar imediatamente apoio psicológico e, em paralelo, reunir evidências digitais que possam subsidiar investigações.

Os relatos das famílias sugerem que a vigilância isolada de dispositivos não é suficiente. A combinação de diálogo contínuo, limites claros e acompanhamento profissional tem sido apontada como a forma mais eficaz de proteção. Enquanto plataformas ajustam políticas de moderação, pais e responsáveis permanecem na linha de frente, enfrentando ameaças que se adaptam rapidamente aos recursos das redes sociais e dos serviços de chat.

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