Países aceleram sistemas tipo Pix para enviar dinheiro ao exterior em segundos

Tecnologia e Inovação

Transferir dinheiro entre países deve começar a levar poucos segundos, não dias. O modelo brasileiro do Pix, que conclui operações em até dez segundos, tornou-se referência e estimula governos e empresas a desenvolver estruturas semelhantes, mais baratas que a rede global Swift.

Pix inspira soluções locais e projetos de integração

Na Colômbia, o Banco da República testa o Bre-B, plataforma de pagamentos instantâneos criada para reduzir o uso de dinheiro físico e ampliar o acesso da população a serviços financeiros. A iniciativa segue a lógica brasileira: baixo custo, liquidação imediata e disponibilidade 24 horas.

Enquanto isso, Índia, Malásia, Filipinas, Singapura e Tailândia trabalham no Nexus, projeto que pretende ligar os seus sistemas de transferências instantâneas para viabilizar operações internacionais sem depender do Swift. O objetivo é permitir que um utilizador envie recursos para outro país usando o mesmo aplicativo já utilizado em pagamentos domésticos.

De acordo com Sebastian Fantini, diretor de produtos do unicórnio brasileiro Ebanx, “o momento atual é de consolidação dos pagamentos instantâneos; o próximo passo inevitável é conectar esses ambientes para transações transfronteiriças”.

Brasil ainda recorre ao Swift, mas cenário começa a mudar

Apesar do avanço do Pix, empresas nacionais continuam a usar a rede Swift para liquidar compromissos no exterior. A própria Ebanx atua como intermediária: o cliente brasileiro faz um Pix para a fintech, que converte o valor e o direciona aos sistemas financeiros internacionais. Segundo Fantini, a redução de custos e prazos só será plena quando houver interoperabilidade direta entre as novas infraestruturas.

O executivo reforça que há elementos técnicos e regulatórios complexos a equacionar. Além dos bancos emissores, participam bandeiras de cartões, processadoras locais e adquirentes responsáveis pelas maquininhas. “Conectar tantas engrenagens de modo seguro e em tempo real é o grande desafio global”, afirma.

Adoção em massa fortalece posição brasileira

Lançado em 2020 pelo Banco Central, o Pix está presente na rotina de 93% da população adulta, segundo dados oficiais. A penetração ampla e a gratuidade para pessoas físicas atraem a atenção de outros países, inclusive dos Estados Unidos, onde o ex-presidente Donald Trump abriu investigação sobre possíveis impactos do sistema brasileiro na competitividade das empresas norte-americanas.

Especialistas atribuem o sucesso local a decisões de design centradas nas necessidades do utilizador: simplicidade para enviar dinheiro, disponibilidade ininterrupta e ausência de tarifas para transações entre pessoas. O mesmo raciocínio orienta as funções que chegaram depois, como o Pix automático.

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Imagem: NewsUp Brasil

Nova fase inclui pagamentos recorrentes e comandos por voz

O Pix automático foi concebido para contas frequentes — água, luz, mensalidades e assinaturas — e busca substituir o débito automático tradicional. Diferentemente do modelo antigo, as autorizações são exibidas no próprio aplicativo bancário, indicando valor, periodicidade e limites, com opção de cancelamento a qualquer momento. Para Fantini, a transparência coloca o utilizador “no centro da decisão”.

O Banco Central também avalia liberar comandos de voz para iniciação de pagamentos e discute o envio de recursos diretamente a beneficiários no exterior. Caso evolua, essa funcionalidade poderá dispensar intermediários e reduzir ainda mais custos.

Parcelamento e boleto chamam atenção de estrangeiros

O ecossistema brasileiro de pagamentos guarda outras características que surpreendem quem chega de fora. O parcelamento sem juros, prática popular desde as décadas de 1980 e 1990 como forma de amenizar os efeitos da inflação, começa a ganhar versões nos Estados Unidos sob o rótulo “buy now, pay later”. Já o boleto bancário, usado para compras online e cobranças diversas, ainda não tem equivalente de larga escala em mercados maduros.

Fantini observa que cada um desses instrumentos nasceu para resolver problemas específicos da economia brasileira. “Quando surgem soluções genuinamente alinhadas às necessidades locais, elas se tornam referência e podem ser adotadas em outros países”, conclui.

Perspectivas para o curto prazo

Com a consolidação de modelos instantâneos e o avanço dos programas piloto de integração, especialistas projetam redução de tarifas e prazos nas remessas internacionais já nos próximos anos. Se o Nexus ou iniciativas semelhantes alcançarem escala, enviar dinheiro de São Paulo a Banguecoque poderá ser tão rápido quanto transferir entre bancos brasileiros.

Enquanto isso, o Banco Central mantém a estratégia de evoluir o Pix em etapas, sempre em diálogo com instituições financeiras e empresas de tecnologia. A expectativa é de que novas funcionalidades, como a interoperabilidade transfronteiriça, fortaleçam ainda mais a posição do Brasil no cenário global de meios de pagamento.

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