Pesquisa no Japão detalha como nossos valores definem a relação com a natureza

NewsUp Brasil

Um estudo conduzido na Universidade Nacional de Yokohama investigou de que forma as crenças culturais, sociais e psicológicas influenciam a maneira como as pessoas percebem e tratam o meio ambiente. A equipa, liderada por Wakaba Tateishi, entrevistou centenas de participantes e analisou três tipos de valor atribuídos à natureza — intrínseco, relacional e instrumental — para entender quais fatores motivam comportamentos de cuidado ou de exploração do planeta.

Três perspectivas sobre o valor da natureza

No modelo adotado pelos investigadores, o valor intrínseco considera que a natureza possui importância própria, independente da utilidade para os seres humanos. O valor instrumental avalia a natureza como recurso a ser usado pelas pessoas. Já o valor relacional foca na qualidade da ligação entre humanos e ambiente, reconhecendo benefícios emocionais, culturais ou espirituais resultantes dessa convivência.

Essas categorias permitiram comparar perceções individuais e identificar como cada tipo de valor se associa a visões de mundo tradicionais, crenças religiosas e indicadores psicológicos, como o sentimento de conexão com a natureza ou a tendência a atribuir características humanas a entidades não humanas.

Correlação entre crenças e atitudes ambientais

Os resultados mostram que priorizar o valor relacional está fortemente ligado à atribuição de agência a seres não humanos, fenómeno observado em pessoas que praticam animismo ou antropomorfismo. Indivíduos com este perfil reconhecem ação e intenção em elementos naturais — como rios ou montanhas — e tendem a adotar práticas de proteção ambiental.

Quando o valor destacado é o intrínseco, verifica-se uma rejeição ao pensamento antropocêntrico. Ou seja, quem acredita que a natureza tem valor por si mesma demonstra menor tendência a colocá-la a serviço exclusivo da humanidade. Essa postura também se relaciona positivamente à escala de «conexão com a natureza», métrica que avalia emoções e sentimentos de pertencimento ao mundo natural.

Curiosamente, o estudo não encontrou correlação significativa entre o valor instrumental e um posicionamento mais antropocêntrico. Essa ausência sugere que ver a natureza apenas como recurso não implica, necessariamente, a crença de que o ser humano ocupa posição superior na hierarquia ambiental, embora tal hipótese exija investigação adicional.

Influência cultural e religiosa

A investigação identificou ainda que visões tradicionais de orientação religiosa se alinham com o valor relacional. Práticas espirituais que promovem respeito ou reverência pela natureza reforçam o sentimento de vínculo entre pessoas e ambiente. Esse resultado respalda a ideia de que valores culturais amplos moldam comportamentos ecológicos específicos.

Pesquisa no Japão detalha como nossos valores definem a relação com a natureza - Imagem Ilustrativa

Imagem: Imagem Ilustrativa

Além disso, a análise confirmou que os três tipos de valor — intrínseco, relacional e instrumental — constituem constructos distintos, síntese que coincide com estudos recenseados em países ocidentais. A convergência de dados reforça a validade internacional desta classificação, abrindo caminho para comparações interculturais mais amplas.

Próximos passos da pesquisa

De acordo com o professor Ryosuke Nakadai, também membro da equipa, o grupo pretende expandir o inquérito para diferentes países a fim de distinguir características universais de elementos específicos de cada cultura. O objetivo final é encontrar estratégias eficazes para sensibilizar populações diversas e orientar políticas de conservação que se afastem da lógica puramente extrativa.

Os autores argumentam que compreender por que algumas pessoas adotam postura de cuidado enquanto outras mantêm atitude exploratória é essencial para enfrentar a crise ambiental global. Ao revelar ligações entre tipos de valor, crenças religiosas e variáveis psicológicas, o trabalho oferece informação base para campanhas educativas, iniciativas comunitárias e desenvolvimento de normas públicas centradas num relacionamento equilibrado com a natureza.

Embora ainda reste investigar sociedades fora do contexto japonês, o estudo de Yokohama demonstra que as visões de mundo não atuam isoladamente. Elas refletem construções coletivas que envolvem religião, tradição, identidade e emoção. Reconhecer essa teia de influências pode ser decisivo para formular abordagens ambientais alinhadas às motivações reais das pessoas, aumentando as hipóteses de êxito em ações de preservação e uso sustentável dos recursos do planeta.

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