Pesquisadores criam plástico híbrido que se molda como vidro e resiste a impactos

NewsUp Brasil

Uma equipa de pesquisadores anunciou o desenvolvimento de um compósito designado “complexímero”, descrito como um material intermédio entre o plástico e o vidro. A novidade reúne duas características normalmente incompatíveis: facilidade de moldagem e elevada resistência a impactos.

Estrutura molecular quebra regra clássica

Nos plásticos convencionais, cadeias longas de polímeros são ligadas de forma permanente por pontes químicas cruzadas. Esse arranjo garante alguma robustez, mas dificulta reparos e processamento. No complexímero, metade das cadeias apresenta carga elétrica positiva e a outra metade negativa. A atração entre polos opostos mantém o conjunto coeso apenas por forças físicas, dispensando as ligações químicas tradicionais.

Esse modelo contrariou a regra empírica que associava processamento lento a fragilidade. O novo material derrete gradualmente, possibilita moldagem precisa e, ao mesmo tempo, suporta choques sem fraturar — desempenho típico dos polímeros mais duros.

Segundo o professor Jasper Van der Gucht, membro da equipa, o resultado demonstra que materiais carregados eletricamente podem comportar-se de forma inesperada. A distância maior entre as cadeias, proporcionada pela ausência de pontes químicas, cria uma microestrutura diferente da observada nos plásticos usuais. Essa configuração parece explicar a combinação inédita de propriedades.

Moldagem simples e reparo rápido

O compósito funde-se a temperaturas mais baixas do que o vidro e não exige extrusoras pesadas para ganhar forma. Pode ser trabalhado por moldagem ou sopro, métodos comuns na indústria vidreira, porém com menor consumo energético. Caso surja uma fissura, basta aplicar calor moderado — um secador de cabelo é citado como exemplo — para que as partes se recombinem pelo efeito das cargas elétricas.

A adaptabilidade amplia a gama de usos potenciais. A equipa vislumbra painéis de cobertura, mobiliário externo e até componentes automotivos produzidos com complexímeros. Produtos sujeitos a impactos seriam beneficiados pela capacidade de absorver choques e pelo conserto quase instantâneo, reduzindo custos de manutenção.

Comparação com líquidos iónicos

Durante os testes, os cientistas confrontaram o novo compósito com substâncias como os líquidos iónicos, materiais que também possuem segmentos carregados e são empregados em baterias e painéis solares. A observação indicou que cadeias com cargas opostas podem originar comportamentos não previstos pelos modelos atuais da ciência dos materiais. Esses resultados abrem caminho para estudos que avaliem outras combinações moleculares capazes de gerar propriedades híbridas.

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Imagem: 1 Tecnologia e Inovação

Etapas futuras de investigação

Até ao momento, apenas alguns gramas do complexímero foram sintetizados em laboratório. A próxima fase envolve ampliar a produção, testar durabilidade em condições reais e investigar limitações de temperatura, exposição UV e agentes químicos. A compreensão detalhada da distância média entre cadeias e do papel exato das interações eletrostáticas será essencial para ajustar rigidez, elasticidade e ponto de fusão conforme a aplicação desejada.

O professor Van der Gucht sublinha que o maior mérito da descoberta está em desafiar teorias consolidadas. Ao demonstrar que um material considerado “impossível” pela literatura é viável, a pesquisa abre novas perguntas sobre o desenho de polímeros. “É aí que começa o verdadeiro trabalho”, afirmou.

Impacto industrial e ambiental

Se a escalabilidade for confirmada, o complexímero poderá substituir plásticos tradicionais em peças que exigem tolerâncias precisas ou exposições frequentes a impactos. A facilidade de reciclagem por fusão simples contribui para reduzir resíduos, uma vez que o material pode ser reprocessado sem perda significativa de desempenho. Além disso, a menor temperatura de trabalho representa economia energética.

Embora ainda em estágio inicial, o projeto ilustra uma tendência da engenharia de materiais: combinar propriedades que antes se excluíam mutuamente, criando compósitos multifuncionais. O sucesso da abordagem eletrostática pode inspirar a criação de outros polímeros autorreparáveis, flexíveis e resistentes, com aplicações que vão de dispositivos eletrónicos a estruturas de construção leve.

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