Gladys West, matemática norte-americana cuja pesquisa viabilizou o Sistema de Posicionamento Global (GPS), morreu aos 95 anos. A família comunicou o falecimento no último domingo, informando que ela “partiu em paz, cercada por parentes e amigos”. A causa não foi divulgada.
Referência para a navegação moderna
West ganhou reconhecimento internacional por elaborar, no início da década de 1980, um modelo matemático da forma real da Terra—o chamado geoide. O trabalho permitiu calcular órbitas de satélites com precisão, incorporando variações gravitacionais e outras irregularidades do planeta. Esse avanço tornou possível o desenvolvimento do GPS, hoje integrado a automóveis, smartphones, aviões, navios e inúmeros serviços de localização.
Ao programar computadores da Marinha dos Estados Unidos para processar grandes volumes de dados geodésicos, a cientista criou uma base de referência indispensável para o posicionamento global por satélite. O feito lhe rendeu o apelido de “mãe do GPS” entre colegas e especialistas.
Trajetória marcada por pioneirismo
Nascida em 27 de outubro de 1930, em Sutherland, no estado da Virgínia, Gladys Brown West cresceu numa comunidade agrícola ainda regida pela segregação racial. Filha de agricultores, dividia o tempo entre o trabalho no campo e os estudos. A excelência escolar lhe garantiu uma bolsa para cursar Matemática no Virginia State College, universidade historicamente negra. Para custear a estadia no campus, atuou como babá e em outras funções paralelas.
Depois de concluir a graduação, trabalhou como professora, mas buscava oportunidades em pesquisa. Em 1956, tornou-se a segunda mulher negra contratada como programadora no Campo de Provas Naval da Virgínia. Nesse laboratório, participou de projetos de rastreamento de satélites e aprimoramento de sistemas de radar. A permanência na base coincidiu com os primeiros passos da corrida espacial, contexto que impulsionou a demanda por cálculos geodésicos de alta precisão.
O ponto alto de sua carreira ocorreu em 1980, quando liderou a programação de um computador capaz de mapear o geoide com um grau de detalhe sem precedentes. O conjunto de algoritmos considerava montanhas, vales e anomalias gravitacionais que afetam a trajetória de satélites em órbita terrestre. O resultado forneceu a estrutura matemática que sustenta o GPS utilizado atualmente em escala global.
Reconhecimento tardio, impacto permanente
Embora decisiva para a navegação via satélite, a contribuição de West permaneceu pouco conhecida do público até a década passada. Em 2018, aos 88 anos, ela foi incluída no Hall da Fama dos Pioneiros do Espaço e Mísseis da Força Aérea norte-americana. A honraria ressaltou seu papel fundamental para aplicações civis e militares de posicionamento e orientação.
Imagem: Tecnologia e Inovação
Em entrevista ao jornal The Guardian em 2020, a pesquisadora declarou que a educação em ciência foi seu “passaporte para a liberdade” num período de restrições impostas pela segregação. O depoimento reforçou o simbolismo de sua trajetória para mulheres e pessoas negras em áreas de exatas.
Legado tecnológico e social
O GPS, tecnologia originada das equações de Gladys West, é hoje componente crítico de setores como transporte, agricultura de precisão, logística, defesa, geolocalização de emergências e serviços de entrega. Estima-se que bilhões de dispositivos recorram diariamente ao sistema para orientar rotas, medir deslocamentos ou sincronizar redes.
Além do impacto tecnológico, especialistas destacam o legado de diversidade e inclusão deixado pela cientista. Ao superar barreiras de género e raça em plena Guerra Fria, West abriu caminho para novas gerações de profissionais em STEM (sigla para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Gladys West deixa o marido, o também militar George West, filhos, netos e bisnetos. O local e a data do funeral não foram informados. De acordo com o comunicado da família, os detalhes sobre homenagens públicas serão divulgados posteriormente.





