A Poosting, plataforma criada no Ceará, ultrapassou a marca de 4,7 milhões de contas registadas ao propor um modelo diferente das grandes redes globais: a exibição cronológica de publicações, sem intervenção de algoritmos que priorizam perfis ou temas específicos.
Origem e referência ao Orkut
O projecto foi desenvolvido pelo cearense Afonso Alcântara, de 38 anos, formado em redes de computadores e análise de sistemas. Inspirado no Orkut, ele decidiu resgatar características que considera terem sido abandonadas pelas plataformas tradicionais, como as comunidades temáticas e o alcance orgânico dos conteúdos.
Alcântara dirige, há 11 anos, uma agência de marketing digital. Segundo ele, a experiência de acompanhar o mercado desde o período anterior ao tráfego pago evidenciou lacunas deixadas pelas redes actuais. “Estudámos o que o público sente falta e estruturámos a Poosting para suprir essas ausências”, explica.
Entrega de conteúdo e combate à polarização
A principal diferença da Poosting está na forma como os posts chegam ao utilizador. O feed segue a ordem temporal, sem algoritmos destinados a destacar influenciadores ou temas em alta. Cada publicação aparece para todos os seguidores na sequência em que foi criada, proporcionando, de acordo com o fundador, “igualdade de visibilidade” e maior controlo sobre o que é consumido.
Alcântara defende que essa abordagem pode reduzir a polarização observada em períodos eleitorais. Para ele, filtros algorítmicos, intensificados a partir de 2008, reforçam visões semelhantes e limitam a exposição a opiniões divergentes. Na Poosting, quem se destaca é o utilizador com maior participação — medido pelo tempo de permanência e interacções — e não pelo número de seguidores.
A rede permite ainda configurar uma página inicial exclusiva para publicações de amigos, oferecendo uma experiência mais restrita caso o utilizador assim prefira.
Escala, infraestrutura e parceria com o Google
O rápido crescimento da base de utilizadores provocou desafios técnicos. Em março de 2025, a Poosting foi seleccionada para o programa Google for Startups Cloud, recebendo R$ 1,5 milhão em créditos para serviços de computação em nuvem, além de mentoria e suporte especializado. Hoje, os dados da plataforma estão armazenados num centro de dados do Google na Califórnia.
Imagem: Tecnologia e Inovação
A decisão de manter os servidores fora do país foi justificada pela necessidade de lidar com picos de tráfego de aproximadamente 60 Gb/s, capacidade ainda inexistente na infraestrutura local de Fortaleza, segundo Alcântara. A migração garantiu maior estabilidade e reduziu quedas de acesso que ocorreram enquanto a aplicação ganhava popularidade.
Crescimento controlado e perspectivas de negócio
Para conter o aumento repentino de cadastros e o consequente volume de dados, a Poosting adoptou, recentemente, um sistema de entrada por convite. Só quem já possui conta pode gerar convites para novos membros. De acordo com a empresa, a medida evita sobrecarga nos servidores e permite melhorias graduais sem comprometer a qualidade do serviço.
O projecto consumiu investimento inicial estimado em R$ 1 milhão. Mesmo sem receita expressiva nos primeiros meses, Alcântara afirma ter recebido propostas de aquisição, inclusive de fundos de investimento. Ele calcula o valor de mercado actual da rede em R$ 100 milhões, baseado na combinação entre número de utilizadores e taxa de retenção.
A monetização deverá ocorrer por meio de publicidade, mas o fundador garante que o modelo seguirá um formato de “baixa poluição visual”, com menos interrupções e sem comprometer a entrega cronológica dos conteúdos.
Com estratégia centrada no controlo do utilizador sobre o próprio feed, a Poosting procura consolidar-se como alternativa para quem prefere escapar dos algoritmos de recomendação dominantes noutras plataformas. O próximo passo da empresa será equilibrar expansão da base de membros com sustentabilidade financeira, mantendo a proposta de transparência na distribuição das publicações.





