Designer portuguesa aponta Portugal como futuro polo mundial da moda

O setor da moda vive um momento de transição marcado pela adoção de práticas mais sustentáveis e pela integração acelerada de ferramentas de inteligência artificial (IA). A designer têxtil Constança Entrudo, uma das vozes emergentes da indústria em Portugal, sustenta que o país reúne condições estratégicas para se tornar uma referência global nos próximos anos.

Indústria inovadora e compromisso com a sustentabilidade

Segundo Entrudo, a combinação entre tradição têxtil e investimento contínuo em inovação coloca Portugal numa posição vantajosa. O país abriga uma cadeia produtiva considerada ágil, tecnicamente avançada e cada vez mais comprometida com metas ambientais. “O Made in Portugal já desperta interesse internacional; somado a novas tecnologias e à chegada de criativos estrangeiros, esse ecossistema pode transformar o território numa capital da moda”, afirmou.

A designer observa que fábricas locais investem em processos de baixo impacto, desde o uso de fibras recicladas até a redução do consumo de água e energia. Essa postura, associada ao know-how acumulado em décadas de produção para grandes marcas internacionais, alimenta o otimismo de profissionais que veem oportunidades de crescimento sem sacrificar responsabilidade ambiental.

Aplicações da inteligência artificial na cadeia têxtil

Convidada para o painel “Moldando o Futuro: Design de IA para as Pessoas e o Planeta”, realizado na sede das Nações Unidas em Nova Iorque, Entrudo detalhou como algoritmos já auxiliam a minimizar desperdícios. Ferramentas de corte automatizado, por exemplo, analisam moldes e calculam o melhor aproveitamento de tecido em frações de segundo, reduzindo sobras que, historicamente, terminariam em aterros.

Além do corte otimizado, a IA contribui para a criação de protótipos virtuais, permitindo simular caimento, cores e texturas sem necessidade de amostras físicas. Essa etapa digital economiza recursos e encurta prazos de desenvolvimento. “Processos que levávamos dias para concluir agora podem ser completados em horas, poupando material e energia”, relatou a designer.

O risco do “craft washing” e a importância da transparência

Apesar das vantagens, Entrudo expressa preocupação com o uso indevido da tecnologia para fins de marketing. Ela alerta para o fenômeno que chama de craft washing, prática em que marcas classificam itens industriais como “artesanais” ou “feitos à mão” sem lastro real. “A IA permite criar narrativas persuasivas e campanhas que reforçam termos como ‘handcrafted’, mesmo quando o processo permanece industrializado”, disse. Para a designer, a transparência deve acompanhar a inovação a fim de evitar que os consumidores sejam induzidos a erro.

Esse debate ganha força num momento em que a rastreabilidade de matérias-primas e a divulgação de informações honestas sobre condições de trabalho tornaram-se critérios de compra para um público mais atento a questões éticas.

Equilíbrio entre processos digitais e saber-fazer manual

Entrudo admite cultivar uma relação ambivalente com a tecnologia: ao mesmo tempo em que celebra ganhos de eficiência, reforça a necessidade de manter práticas manuais como parte do processo criativo. “Desenhar à mão, experimentar e cometer erros dão origem a soluções que um algoritmo não prevê”, afirma. Para ela, a pesquisa em arquivos, museus e ateliês continua insubstituível, pois expõe o profissional a referências históricas e contextuais que alimentam a originalidade.

Nessa linha, a designer desenvolveu a técnica “unwoven” — uma destelagem que desconstrói tramas existentes para recompor tecidos fio a fio, muitas vezes com uso de material reciclado. O método, executado fora do tear, resulta em texturas únicas e reforça a conexão entre artesanato e inovação.

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Imagem: ilustrativa

Formação internacional e empreendedorismo local

Graduada pela Central Saint Martins, em Londres, Entrudo retornou a Portugal para fundar a própria marca. A decisão, além de aproximá-la da indústria têxtil nacional, reflete confiança na capacidade do país de oferecer infraestrutura competitiva a criadores independentes. “As fábricas portuguesas já produzem para quase todas as grandes etiquetas globais; falta apenas estreitar laços entre designers e técnicos da linha de produção para elevar ainda mais o padrão”, argumentou.

Ela defende que o relançamento de técnicas artesanais tradicionais — do bordado regional à tecelagem manual — pode diferenciar o produto português num mercado saturado. Esse resgate, aliado a processos industriais eficientes, formaria um portfólio capaz de concorrer com polos consolidados como Milão, Paris ou Londres.

Orientações para a nova geração de profissionais

Ao comentar a própria trajetória, Entrudo enfatiza que persistência e estudo contínuo são essenciais para superar a volatilidade do setor. “A criatividade não surge todos os dias; é preciso aceitar frustrações, voltar atrás e refinar ideias. Investir em pesquisa e confiar no processo fazem a diferença”, aconselhou. Para jovens que pretendem ingressar na moda, ela recomenda atenção constante a inovações tecnológicas, mas sem negligenciar valores como autenticidade, propósito e impacto ambiental.

Potencial de crescimento e próximos desafios

Com uma indústria preparada para operar em escala, quadros técnicos qualificados e forte reputação internacional, Portugal encontra-se diante de uma janela de oportunidade singular. A expansão dependerá, no entanto, de políticas que estimulem inovação contínua, qualificação de mão de obra e aproximação entre marcas locais e centros criativos globais.

Analistas apontam que a competição por investimento estrangeiro e pela atenção de consumidores exigirá diferenciação baseada em qualidade, transparência e sustentabilidade — fatores presentes no discurso de Entrudo e de outros empreendedores do segmento. O êxito na construção dessa imagem pode consolidar o país como destino preferencial para produção, design e lançamento de coleções voltadas a um público cada vez mais consciente.

A visão apresentada pela designer indica que, ao harmonizar tecnologia, tradição e responsabilidade socioambiental, Portugal tem condições de transformar seu histórico têxtil em liderança internacional. O caminho inclui desde a adoção criteriosa de IA até o combate ao craft washing, passando pela valorização do trabalho manual e pela formação de novas gerações capazes de inovar sem comprometer recursos do planeta.

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