Portugal assumiu perante a Organização das Nações Unidas o compromisso de diminuir a diferença salarial entre homens e mulheres que atuam em ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). A posição foi apresentada pela ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, durante a 70ª sessão da Comissão sobre o Estatuto da Mulher (CSW70), em Nova Iorque.
Disparidade cresce com a progressão na carreira
Segundo a governante, as remunerações de profissionais do sexo feminino em STEM mostram uma das distâncias mais expressivas em comparação com colegas do sexo masculino que desempenham as mesmas funções. A desigualdade, de acordo com a ministra, torna-se ainda maior à medida que as trabalhadoras avançam na hierarquia das empresas ou das instituições de pesquisa.
Margarida Balseiro Lopes alertou que, num futuro próximo, as áreas tecnológicas serão responsáveis por uma parcela crescente dos empregos com salários mais elevados. Caso não existam políticas públicas direcionadas, a ausência de mulheres nesses campos poderá consolidar disparidades de rendimento por várias décadas.
Dados das Nações Unidas indicam que apenas 35% dos graduados em ciências no mundo são mulheres. No ambiente profissional, elas ainda enfrentam obstáculos como acesso limitado a financiamento para pesquisa, estereótipos de gênero e práticas discriminatórias.
Novo programa nacional mobiliza universidades
Para enfrentar o problema, o governo lançou em outubro de 2025 o Programa Nacional de Raparigas na STEM. A iniciativa, financiada pelo Estado português, conta com um orçamento superior a 20 milhões e envolve instituições de ensino superior de todo o país. O primeiro balanço preliminar será divulgado em abril, no Dia Internacional das Mulheres nas TIC.
De acordo com a ministra, a adesão de faculdades e universidades às medidas propostas foi “muito expressiva”. Entre as ações já em curso estão bolsas de estudo, mentoria com profissionais do setor, programas de estágios remunerados e campanhas de sensibilização em escolas secundárias. O objetivo é aumentar o número de meninas que escolhem cursos de ciências exatas e, posteriormente, garantir condições para que permaneçam e progridam na carreira.
Meta: liderança europeia em igualdade tecnológica
Atualmente, cerca de 22,3% a 22,4% dos profissionais de STEM em Portugal são mulheres — proporção ligeiramente superior à média da União Europeia, mas ainda distante dos 27% registados por países na liderança do bloco, como a Estónia. O governo pretende colocar Portugal entre as nações com melhor desempenho, tanto em participação feminina quanto em paridade salarial.
Margarida Balseiro Lopes defendeu que “a média europeia é manifestamente insuficiente” e reforçou a ambição de tornar Portugal uma referência regional e internacional na redução de assimetrias de género em ciência e tecnologia.
Outros avanços e desafios
Fora do setor tecnológico, o país registou crescimento consistente da presença feminina no ecossistema da justiça ao longo dos últimos 50 anos de democracia. Hoje, mais mulheres integram a magistratura judicial, o Ministério Público e a advocacia.
Imagem: ilustrativa
No combate à violência doméstica e sexual, o ordenamento jurídico português passou por atualizações que ampliam o acesso das vítimas a meios económicos, apoio psicológico e informação em diversos idiomas — medida que visa atender também cidadãs estrangeiras residentes em território nacional.
Por que a igualdade em STEM é estratégica
A expansão de vagas nas áreas digitais e a oferta de salários relativamente superiores fazem de STEM um dos motores de crescimento económico contemporâneo. Especialistas consideram que a falta de diversidade nesses setores não apenas agrava desequilíbrios de rendimento, mas também limita a inovação de produtos e serviços.
Globalmente, apenas 26% da força de trabalho em tecnologia é composta por mulheres. Para Portugal, aumentar essa representatividade é visto como passo fundamental para a competitividade do país em médio e longo prazos.
Próximos passos
O relatório preliminar do Programa Nacional de Raparigas na STEM, previsto para abril, deverá detalhar indicadores de participação estudantil, número de projetos financiados e resultados iniciais de ações de mentoria. Com base nos dados, o governo pretende ajustar metas e redirecionar recursos a iniciativas que apresentem maior impacto.
Ao mesmo tempo, continuam em elaboração políticas complementares voltadas à conciliação entre vida profissional e familiar, combate a estereótipos de género nos currículos escolares e criação de redes de apoio para investigadoras em início de carreira.
Com essas medidas, Portugal procura acelerar a transição para um mercado de trabalho mais inclusivo, onde homens e mulheres tenham oportunidades equivalentes de formação, progressão e remuneração.






